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cnbb_doc62
MISSÃO E MINISTÉRIOS
DOS CRISTÃOS LEIGOS
E LEIGAS
APRESENTAÇÃO
EXTRAORDINÁRIO FLORESCIMENTO
A renovação eclesial, após o Concílio Vaticano II,
trouxe, no campo do laicato católico, notável florescimento de novas formas de
associação e de apostolado. Notava-o o Santo Padre, quando após o Sínodo de
1987 escrevia: "Nestes tempos mais recentes, o fenômeno da agregação dos
leigos entre si assumiu formas de particular variedade e vivacidade... Pode-se
falar de uma nova era agregativa dos fiéis leigos" (CfL 29). No
meio da variedade ou diversidade, o Santo Padre descobria também uma
"profunda convergência" na finalidade das mesmas agregações:
"a de participar responsavelmente da missão da Igreja de levar o Evangelho
de Cristo, qual fonte de esperança para o homem e de renovação para a
sociedade"
As novidades, porém, trouxeram algumas dúvidas que se
manifestaram no Sínodo de 1987, particularmente acerca de dois aspectos: 1) o
reconhecimento de novos movimentos, para os quais o Papa indicava os critérios
de eclesialidade (CfL 30) e pedia ao Pontifício Conselho dos Leigos que
elaborasse o elenco das associações aprovadas oficialmente pela Santa Sé (CfL
31); 2) uma melhor definição dos ministérios confiados aos leigos e uma possível
revisão do "Motu Proprio" Ministeria Quaedam (CfL 23).
TEMA VASTO E COMPLEXO
Recentemente ainda, na Exortação Ecclesia in America,
o Santo Padre afirma que o tema dos ministérios laicais é "vasto e
complexo", que seu estudo prossegue e que os organismos da Santa Sé
"vêm aos poucos oferecendo algumas diretrizes" sobre o assunto. Ao
mesmo tempo, o Papa deixa claro que esse âmbito "intra-eclesial" do
apostolado leigo não deve diminuir o empenho naquele que considera o campo
"primeiro e mais condizente com o seu estado laical, o das realidades
temporais, que [os leigos] são chamados a ordenar conforme a vontade de
Deus" (EA 44). Esse campo é descrito com as palavras da Evangelii
Nuntiandi como: "o mundo vasto e complicado da política, da
realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das
artes, da vida internacional, dos "mass media" e, ainda, outras
realidades abertas para a evangelização, como sejam, o amor, a família, a
educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o
sofrimento" (EN 70, citado por CfL 23).
REALIDADE BRASILEIRA
Também na realidade brasileira, nos anos recentes, tivemos
um extraordinário florescimento de novos ministérios a serviço das
comunidades eclesiais, de novos movimentos animados por um ideal de
evangelização da sociedade e de renovação da espiritualidade cristã, de novas
formas de atuação laical no campo da política, da promoção dos direitos
humanos e da solidariedade com pobres, excluídos e sofredores.
As novas formas de atuação de leigos e leigas católicos
vieram acrescentar-se às mais antigas, muitas das quais ainda vivas e
vigorosas, mas geralmente se orientaram no sentido da distinção, e até da
separação, entre os dois campos tradicionais do apostolado leigo: as
atividades "ad extra" de presença na sociedade, nas "realidades
temporais", e as atividades "ad intra", de serviço às
comunidades eclesiais, numa multiplicidade de ministérios reconhecidos e de
prestações espontâneas. A própria organização da CNBB estruturou-se
segundo esse dualismo e manteve, até hoje, um Setor Leigos e um Setor Vocações
e Ministérios. Pareceu oportuno aos responsáveis por esses setores unir seus
esforços com os de seus assessores e, principalmente, dos representantes de
organismos pastorais, movimentos eclesiais e comunidades, para aprofundar a
reflexão sobre a missão dos leigos, nos seus dois aspectos, procurando
promover o melhor entendimento de todos os que estavam envolvidos e uma valorização
ainda mais clara da vocação de leigos e leigas cristãos no mundo de hoje.
TENDÊNCIAS DIVERSAS
Com efeito, um excessivo afastamento entre os dois âmbitos
da ação evangelizadora dos leigos tinha levado, às vezes, a criar também
distância e incompreensão entre os leigos empenhados exclusivamente num dos
dois campos. Além disso, a novidade e variedade das novas formas de apostolado
levaram a um grande dinamismo apostólico, mas também – em alguns casos –
à tendências menos felizes, que tinham dificuldade de conviver e cooperar na
desejável comunhão eclesial. Certos grupos pareciam respeitar pouco a
autonomia do compromisso cristão nas realidades temporais. Outros pareciam
clericalizar a prática dos ministérios laicais, até confundi-los, às vezes,
indevidamente, com os ministérios ordenados. Outros ainda queixavam-se do
escasso apoio das comunidades eclesiais aos leigos empenhados no campo social,
político e cultural. Outros, ao contrário, queixavam-se do escasso empenho dos
leigos católicos na transformação da sociedade. Outros, por fim, pediam mais
formação doutrinal e orientação cristã para os leigos empenhados num
ambiente secularizado.
Diante de tal situação – ao mesmo tempo carregada de
promessas e esperanças, mas também de lacunas e dificuldades – parecia
conveniente elaborar, de forma clara e sistemática, orientações práticas com
uma boa fundamentação teológica.
OBJETIVOS DE UM NOVO DOCUMENTO
No décimo aniversário da Christifideles Laici, os
bispos D. Marcelo Carvalheira e D. Angélico Bernardino solicitaram que o tema
fosse estudado na Assembléia Geral da CNBB para que um documento oficial do
episcopado contribuísse para:
1º. um claro reconhecimento da dignidade dos leigos na
Igreja, retomando as fortes expressões do capítulo primeiro da Christifideles
Laici (cf. especialmente o nº 17) e avivando a consciência, ainda
adormecida, dos muitos católicos praticantes ou tradicionais, que interpretam
apenas passivamente sua pertença à Igreja, mais como objeto do que como
sujeitos da evangelização, não apenas individualmente, mas de forma associada
(cf. CfL, 29);
2º. uma explicitação da eclesiologia conciliar, como base
segura para entender e harmonizar as diversas formas de apostolado leigo e a
relação entre ministérios confiados aos leigos, em virtude do seu Batismo, e
ministérios conferidos pelo sacramento da Ordem;
3º. um esclarecimento das dúvidas particulares, muitas
vezes de ordem prática, que a multiplicidade das experiências, a mudança do
contexto sócio-cultural e a própria novidade dos desafios emergentes trouxeram
ao laicato católico e aos pastores no Brasil assim como ao conjunto da Igreja e
do episcopado (veja o Sínodo de 1987).
PROCESSO DE ELABORAÇÃO
O primeiro ante-projeto de documento, elaborado pelos responsáveis
dos mencionados setores da CNBB, apresentado na Assembléia de 1998, dedicava
– na reflexão sobre os ministérios – também um amplo espaço aos ministérios
ordenados, o que foi julgado excessivo num documento dirigido prioritariamente
aos leigos. A reformulação do ante-projeto, na própria Assembléia, levou a
dar mais unidade ao documento, centrando-o mais especificamente ao redor da vocação
fundamental do leigo, enquanto membro do povo de Deus e co-responsável pela
missão da Igreja. Retomando a eclesiologia do Vaticano II e procurando oferecer
uma interpretação rigorosa e coerente dos textos do Concílio, à luz da
Constituição Lumen Gentium, o ante-projeto do documento consegue
mostrar a conexão e necessária complementaridade da missão de cristãos
leigos no mundo – campo próprio de sua atividade evangelizadora –, com os
serviços e ministérios que os fiéis leigos e leigas, em virtude do seu
Batismo, podem e devem assumir na Igreja.
BUSCANDO UMA VISÃO MAIS COMPLETA E HARMONIOSA
DA MISSÃO DOS LEIGOS
O documento retoma uma preocupação presente na Christifideles
Laici, que deseja, na vida do leigo cristão, unidade e comunicação entre
a inserção nas realidades temporais e a vida no Espírito, que brota da comunhão
com Cristo fundada no Batismo, a fim de que leigos e leigas possam santificar-se
no mundo (cf. CfL 17, que cita AA 4).
Essa mesma unidade é desejável também no nível das
associações e organizações católicas do laicato. Elas também devem
favorecer a articulação e comunicação eficaz entre as atividades dos cristãos
que estão voltadas para ordenar o mundo segundo a vontade de Deus e aquelas
atividades que estão voltadas para a edificação da comunidade eclesial.
Por isso, o documento, nas suas orientações práticas, em
lugar de opor – com o risco de separar (!) - empenho dos leigos no mundo e
serviço na Igreja (atividades "ad extra" e atividades "ad
intra"), traça diretrizes para que os leigos participem, com autêntica
inspiração cristã, de toda a missão da Igreja, ou seja, de toda a ação
evangelizadora. Esta exige "serviço, diálogo, anúncio e comunhão",
sem jamais descuidar da presença no mundo, no coração dos dramas humanos, e
sem nunca deixar de haurir o espírito de Cristo na palavra do Evangelho, na
celebração da Liturgia e no encontro com as pessoas humanas, especialmente dos
pobres e sofredores.
D. Eduardo Koaik D. Angélico Sândalo Bernardino
Bispo de Piracicaba Bispo Auxiliar de São Paulo
Responsável pelo Setor Leigos Responsável pelo Setor Vocações
e Ministérios
Itaici-SP, 22.04.1999
INTRODUÇÃO
Os homens e as mulheres de hoje se parecem com os caminhantes que iam, na
tarde da Páscoa, para Emaús. Decepcionados, conversavam entre si sobre seus
desenganos, sobre as esperanças frustradas. É a mesma conversa do povo hoje:
espera por um progresso econômico e vê a situação pessoal piorar; espera
por saúde e vê voltarem antigas doenças – dadas como debeladas para
sempre; espera por paz e convivência fraterna e é atingido pela violência
que não escolhe suas vítimas e torna todos inseguros; espera por
administradores públicos eficientes e honestos, atentos às necessidades do
povo, como lhe foi prometido, e desconfia de que na política prevaleçam os
interesses de poucos, dos que querem aumentar ainda mais seu patrimônio, a
preço da exclusão de muitos; espera por cristãos mais fiéis ao Evangelho,
mais empenhados no serviço aos irmãos, mais abertos ao diálogo, e encontra
frieza e pouca fé... Desconfiam, às vezes, até de Deus, como o salmista:
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" Como pode Deus
permitir a crucifixão de tantos irmãos?
Não faltam esperanças ou ao menos expectativas, por exemplo, nos avanços
da ciência e da tecnologia. Mas estes avanços também parecem ser de
proveito para poucos. E tornam ainda mais absurdo que continue a haver fome,
doenças, miséria, desemprego, que uma melhor distribuição dos recursos
poderia eliminar – no Brasil e no mundo.
O povo itinerante procura muitas vezes esquecer seus dramas na diversão,
no entretenimento oferecido pela mídia eletrônica, no jogo, no álcool,
nas drogas... Mas também a experiência humana está afetada por perguntas
fortes acerca de sua identidade, de sua origem, de seu percurso e de seu
destino. Por isso, com maior empenho nos últimos anos, as pessoas procuram
resposta e caminho na filosofia, nas religiões, em diversas formas de
espiritualidade. Nós, cristãos, redescobrimos, de maneira nova, a Palavra
de Deus e a presença viva de Cristo. Percebemos que as muitas ideologias
alternativas ao cristianismo, que inspiraram projetos nobres, mas também
conduziram às piores tragédias da história em nosso século, deixaram
ainda mais claro que Cristo continua sendo para a humanidade o Caminho, a
Verdade e a Vida.
O cristianismo não propõe uma verdade abstrata nem apenas uma doutrina,
mas acredita na presença de Alguém que caminha conosco, mesmo que, às
vezes, nossos olhos não o reconheçam. Nossos olhos se abrem, quando o
reconhecemos no "menor dos irmãos" que nos pede pão, água,
roupa, casa, assistência médica, justiça ou, simplesmente, uma atenção,
uma visita. É quando os caminhantes de Emaús convidam o desconhecido a
sentar-se à mesa com eles, a partilhar a ceia, que seus olhos se abrem. O
mesmo acontece hoje, quando esta ceia é celebrada como Eucaristia,
agradecendo ao Pai pela entrega do próprio Cristo Jesus, que se oferece por
nós e nos alimenta, na jornada, com o dom do Pão e do Vinho.
Quando a humanidade descobre e pratica a solidariedade e a partilha, já
está sendo movida pelo Espírito de Jesus. Já reencontrou a esperança. Já
está acolhendo o "reino de Deus" e começando a superar as decepções
e suas causas.
No meio da humanidade, solidários com ela, estão os discípulos e as
discípulas de Cristo. São aqueles que, tendo reconhecido o Cristo
caminhando ao seu lado, correm para anunciar aos irmãos e irmãs que o
Cristo ressuscitado está vivo no meio de nós.
Os cristãos, portanto, são no mundo portadores da esperança: de que a
morte do Justo não é a última palavra da história, pois o amor do Pai o
ressuscitou; de que Deus há de ressuscitar "nossos pobres corpos
mortais"; de que o nosso futuro está no reino de Deus, na afirmação
do seu governo na história do mundo, enfim purificada de todo o mal.
Esperança que o livro do Apocalipse descreve com as imagens da maravilhosa
cidade, que não precisa de sol ou lua, porque "é a glória de
Deus que a ilumina", e da renovação total, de "novos céus
e nova terra":
"Deus habitará com eles; eles serão o seu povo,
e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos,
pois nunca mais haverá morte, nem luto nem clamor nem dor...
Sim! As coisas antigas se foram!".
- A esperança, porém, não afasta os cristãos dos outros homens e
mulheres. Ao contrário, torna-os ainda mais solidários. "As
alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje,
sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as
esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se
encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração".
"A esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve
impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. O progresso
terreno... é de grande interesse para o Reino de Deus".
- Por isso, o cristão "levanta a cabeça" e olha para
a libertação que se aproxima, mas não deixa de "pôr as mãos no
arado" ou na enxada, não pára de trabalhar para alimentar a família
humana nem deixa de ser o "administrador fiel" dos bens que Deus
lhe confiou, a serviço de irmãos e irmãs. O cristão eleva seu coração
a Deus na oração, de onde recebe luz para discernir os caminhos da justiça
e da paz no mundo humano.
I. DESAFIOS E SINAIS DOS TEMPOS
- O cristão olha para o mundo com realismo e com esperança. Procura
reconhecer nele os sinais da vontade de Deus e os caminhos que apontam para o
Reino, assim como distinguir os obstáculos e as forças do mal que impedem a
sociedade humana de avançar na direção da justiça, da paz e da
fraternidade.Neste momento histórico, estamos diante de uma realidade particularmente
complexa e, ao mesmo tempo, contraditória e fragmentada. Torna-se,
portanto, difícil - mas não impossível! - compreender os rumos da história
atual ou fazer julgamentos corretos. Nasce, em muitos, a sensação de
incerteza, muitas vezes de desorientação, da qual procuram fugir,
"simplificando" a realidade, considerando apenas alguns aspectos
dela, criando esquemas ou imagens simplistas do que está acontecendo. Mesmo
assim, é necessário esforço para situar nosso contexto, dentro de um
quadro mais amplo, visto que a "globalização" aumenta sempre
mais as influências externas sobre a realidade em que vivemos.
- Cientes dessas dificuldades, queremos aqui apenas salientar, rapidamente,
alguns traços da situação atual, que são relevantes para a consciência
cristã e constituem verdadeiros desafios para a missão do evangelizador.
Cabe a cada cristão – dentro de sua comunidade, organização ou
movimento – discernir com mais profundidade esses desafios, percebendo as
luzes e as sombras, os sinais da graça e as seqüelas do pecado. Todos
temos o dever de nos esforçar, iluminados pela fé, para compreender a
realidade e buscar caminhos.
1. DESAFIOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E POLÍTICOS
- A economia exerce grande influência sobre a nossa sociedade. As
mudanças no mercado são mais rápidas do que no passado, conseqüência dos avanços
da tecnologia e de maior interdependência das economias nacionais
(fenômeno da "globalização"). Ao lado de alguns aspectos
positivos - intercâmbio de informações, produtos, serviços e
relacionamentos em escala global - a globalização tem acarretado graves
preocupações, porque orientada, de fato, pela ideologia do mercado, que tem
diminuído a autonomia dos Estados nacionais e concentrado ulteriormente a
renda. Este fenômeno cria novas e imprevistas situações de desespero,
aumenta a pobreza e o desemprego, força a migração em busca de trabalho mal
remunerado, enfraquece a política social, causa a exclusão de multidões.
Isto acontece sobretudo onde tem sido adotada, sem restrições, a política
econômica "neoliberal". Essa política poderá favorecer apenas
pequena parcela da humanidade, excluindo, de fato, a maioria da população
dos benefícios conseguidos.
- Na encíclica para "O Centenário da Rerum novarum"
(1991), o papa João Paulo II reconhecia que "o livre mercado parece
ser o instrumento mais eficaz para dinamizar os recursos e corresponder
eficazmente às necessidades". Mas acrescentava: "Existem
numerosas carências humanas sem acesso ao mercado. É estrito dever de
justiça e verdade impedir que as necessidades humanas fundamentais permaneçam
insatisfeitas e pereçam os homens por elas oprimidos...Abre-se aqui um
grande e fecundo campo de empenho e de luta, em nome da justiça... É
correto falar de luta contra um sistema econômico, visto como instrumento
que assegura a prevalência absoluta do capital, da posse dos meios de produção
e da terra".
- Nesse contexto, tem crescido a dívida externa dos Países em
desenvolvimento e a dívida social para com a maioria dos seus próprios
cidadãos, cujo trabalho é mal remunerado. Assim se lhes negam as condições
básicas de alimentação, moradia, educação e saúde e se enfraquece ou se
esvazia a própria democracia, pois as pessoas se sentem desmotivadas a
exercer sua cidadania, enquanto os grandes interesses financeiros
condicionam unilateralmente o Estado, impedindo-o de cuidar do bem comum dos
cidadãos.
- O Brasil depende hoje, fortemente, do sistema financeiro internacional.
Seus problemas são agravados pela desigualdade social muito
acentuada, entre as maiores do mundo, que atinge imensa massa de
deserdados e sofredores, além do mais, provados pela crescente onda de
desemprego e a lentidão da Reforma Agrária.
17. Nisso tudo se manifesta a tendência geral da sociedade
moderna, que nos campos da política e da economia não leva em conta os
valores éticos, tais como o respeito dos direitos básicos de toda pessoa
humana, a primazia do trabalho, a solidariedade. Como cristãos, devemos
avaliar em profundidade as conseqüências dessa inversão de valores,
principalmente no que diz respeito ao grave problema da deformação das
consciências. Nossa sociedade vai habituando-se a conviver com contravalores
e perdendo a capacidade de distinguir o justo do injusto, o verdadeiro do
falso. Aquilo que é desprovido de todo e qualquer caráter ético, começa a
impor-se como legítimo. A conseqüência é o crescimento descontrolado da
corrupção, do abuso do poder, da exploração institucionalizada,
favorecidos pela impunidade.
18. A camada social que, certamente, sai mais prejudicada
por tal deformação das consciências é a juventude, exigindo um
trabalho mais intensivo na formação do senso crítico. A juventude sofre
diversas agressões, entre elas o desemprego e a violência. Deixa-se seduzir
pelas drogas e torna-se presa fácil da organização criminal do narcotráfico.
O futuro torna-se muito incerto e a juventude torna-se a maior vítima da
crise das relações sociais e familiares. A nova geração vive o momento
presente numa visão imediatista, pois a sociedade a priva do passado e do
futuro. A sociedade exalta a juventude e oferece-lhe muitas ilusões de
consumo e de realização pessoal. Parece apresentar muitas oportunidades, mas
efetivamente oferece poucos empregos e remuneração injusta. Força muitos
jovens a se refugiarem numa vida sem maiores perspectivas. Por outro lado, os
jovens, mesmo se confiam pouco em partidos, sindicatos, associações,
escolas, procuram espaços oferecidos pelas Igrejas cristãs e particularmente
pela Pastoral da Juventude, onde encontram oportunidades de oração, de formação,
de exercício da cidadania, de serviço voluntário. Constata-se busca da mística
e uma crescente preocupação pela espiritualidade.
- Por outro lado, diante dos efeitos perversos da globalização, surgem
sinais
nítidos e claros de reação da parte de indivíduos, grupos e povos.
Aumentam as dúvidas sobre a viabilidade, a médio e longo prazo, do atual
modelo capitalista e temem-se suas desastrosas conseqüências para o
meio-ambiente. Em vários Países, adotam-se medidas econômicas e sociais
alternativas ao neo-liberalismo, visando à preservação do Estado nacional
e dos direitos dos trabalhadores, ameaçados pela "desregulação"
da economia. Multiplicam-se também as iniciativas em defesa da própria
tradição cultural, étnica ou nacional em face do nivelamento provocado
pela globalização. Em nosso País, os que não têm terra, casa, emprego e
alimento organizam-se para garantir sua sobrevivência e contestar as leis
que favorecem, ainda mais, os poderosos. Mulheres, índios, negros e grupos
marginalizados reivindicam seus direitos ao pleno exercício da cidadania e
à expressão das diferenças.
- A consciência de que o homem destruiu muitos recursos naturais não renováveis
e coloca em perigo o futuro da própria humanidade, com a poluição do
meio-ambiente, tem crescido. Muitos percebem mais claramente que não é lícito
prejudicar o futuro das novas gerações tornando inabitável a Mãe-Terra.
Muitos percebem também que, na origem dos excessos humanos, está uma
mentalidade "prometéica", de domínio do homem sobre o mundo, de
consumismo desenfreado e desmedido, sobretudo por parte dos mais ricos. Tal
mentalidade deve ser superada através da reconciliação da humanidade com
a natureza e através de melhor distribuição dos bens. Para os cristãos,
tudo isso significa reconhecimento e respeito para com a obra do Criador.
- Diante do modelo social, que incentiva o egoísmo e reduz a pessoa a mero
consumidor, impõe-se o revigoramento da solidariedade entre todos os
cidadãos. Ela deve sustentar iniciativas voluntárias de ajuda aos mais
carentes e exigir decisões políticas e medidas legislativas em prol de autêntica
justiça social, garantindo a igualdade de oportunidades. A Igreja não pode
deixar de exercer uma crítica rigorosa às ideologias que
desprezam os valores éticos fundamentais e de apoiar, com todos os meios ao
seu alcance, a construção de uma sociedade solidária. Ao mesmo tempo
precisa fazer um exame de consciência, "interrogando-se sobre as
responsabilidades que lhe cabem nos males do nosso tempo",
particularmente diante das graves injustiças e da marginalização social,
para discernir o que e pode fazer.
2. DESAFIOS CULTURAIS, ÉTICOS E RELIGIOSOS
O predomínio da economia na sociedade atual está vinculado a opções éticas
e culturais. É impossível compreender o comportamento de pessoas e grupos,
sem levar em conta as motivações culturais que o impulsionam. Análises das
estruturas econômicas e políticas são necessárias, mas insuficientes para
compreender as tendências da sociedade atual, particularmente complexa.
- Recentemente, em lugar da cultura tradicional, difundiu-se a cultura da
modernidade,
caracterizada pela crítica do passado e a oferta de diferentes modelos de
vida. Em outras palavras, no Brasil como nas sociedades modernas, predomina
hoje o pluralismo cultural, que, a partir dos centros urbanos, se
alastra por todo o território nacional. O pluralismo é, em si, fator
positivo, quando proporciona diálogo e respeito mútuo entre as diversas
culturas. Mas, de fato, ele é limitado e ameaçado pela poderosa influência
dos meios de comunicação de massa, transmissores da "cultura
global", regida pelas leis do mercado, desprovida de preocupações
éticas, manipuladora das consciências. Os meios de comunicação de massa
podem contribuir para aumentar enormemente a difusão da informação e do
conhecimento, mas de fato o seu uso sofre graves distorções. Eles agem
muitas vezes no sentido da "homogeneização" da cultura,
difundindo no mundo inteiro os mesmos produtos culturais e os mesmos modelos
de comportamento. A essa "cultura de massa" resistem, com
dificuldades, a cultura popular, com sólidas raízes no mundo rural,
e a cultura erudita e científica.
- Na sociedade tradicional, era a cultura que determinava, em grande parte,
a identidade de cada indivíduo e lhe atribuía um papel específico na
sociedade. Na sociedade "moderna", o indivíduo tende a considerar
a cultura como supermercado, onde pode escolher e adquirir elementos para
construir a própria visão do mundo e suas relações. Dentro dessa cultura
e do seu pluralismo, o indivíduo muda sua atitude perante a questão da
sua identidade. Simplificando, pode-se dizer que a questão da
identidade (quem sou eu? qual é o meu papel na sociedade?) se tornou uma
questão privada, pessoal. Tudo isso contribui para enfraquecer os laços
comunitários, que pressupõem uma tradição ou cultura comum, e substituí-los
por relações criadas a partir das escolhas pessoais. Esse fato, em si,
pode ser positivo. O cristianismo contribuiu para acelerar o processo de
valorização da pessoa. Mas, atualmente, em muitos casos, sobretudo no
mundo urbano, as antigas relações comunitárias não foram ainda substituídas
por novas relações sociais adequadas, capazes de garantir a liberdade e
segurança das pessoas. Resultam daí efeitos negativos, como o aumento da
violência e a extremada concepção da liberdade individual.
- A concepção relativista da verdade e extremamente individualista da
liberdade leva à aceitação de práticas – como aborto, eutanásia,
uso das drogas, busca desenfreada por bens materiais e a negação da
solidariedade – que desprezam o valor da vida humana. Na encíclica "Evangelium
Vitae", João Paulo II fala de "um combate gigantesco e dramático
entre o mal e o bem, a morte e a vida, a "cultura da morte" e a
"cultura da vida". Encontramo-nos não só "diante", mas
necessariamente "no meio" de tal conflito: tod
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os estamos
implicados e tomamos parte nele, com a responsabilidade irrenunciável de decidir
incondicionalmente a favor da vida".
- A mudança da identidade individual, decisiva na configuração da
modernidade, gera conseqüências explosivas em todos os campos,
inclusive no campo religioso. É importante observar que essa situação
tem provocado novo interesse pela religião, que foi chamado - de
forma pouco apropriada - a "revanche de Deus". Outros falam de
"sedução do sagrado" ou de "retorno do religioso". Na
realidade, não se trata de um retorno, porque muitos são os aspectos
novos, que não figuravam na religião tradicional. Em linhas gerais, as
novas atitudes religiosas - mais que se voltar para a revelação de Deus -
buscam a solução de problemas pessoais. As estruturas pastorais da Igreja
Católica, especialmente no meio urbano, ainda não conseguiram adaptar-se
adequadamente à nova situação que exige um atendimento mais diversificado
e personalizado. A religião é hoje muito procurada, porque consola, cura e
ajuda a dar sentido à própria existência.
- Tendência evidente no Brasil dos anos recentes é
reconsiderar a própria
escolha religiosa. Conseqüentemente temos assistido à passagem de
muitas pessoas de uma religião (ou Igreja) a outra. A falta de uma adesão
pessoal e viva a Jesus Cristo e de ligação maior com a comunidade eclesial
coloca-se entre as causas que explicam o fato de muitos católicos terem
mudado de religião. Outros católicos não conseguem fazer uma experiência
religiosa emocionalmente envolvente em sua comunidade de origem e saem em
busca de outras experiências. Não se trata, geralmente, de uma
"conversão" no sentido forte da palavra, que implique decidida
mudança ou ruptura. Predomina a concepção de que as várias Igrejas ou
religiões são igualmente boas. "Experimenta-se" outra religião,
às vezes por breve período, em busca daquela que satisfaça o gosto de
cada um. Esses fenômenos se tornam mais freqüentes no Brasil, quer porque
aqui elementos das religiões indígenas e africanas se misturaram com
elementos da religião católica, quer pela rápida urbanização, que pôs
em contato populações de origem rural com um ambiente "pós-moderno",
dinâmico, com referências múltiplas, que é a cidade. Há também casos
em que a pessoa justapõe práticas de diversas religiões, e casos de adesão
a uma religiosidade de contornos indefinidos, sincretista, como a da
"Nova Era".
- A religião, como questão de escolha, é fato julgado
positivamente pela nossa sociedade. Também o cristianismo assume esta condição
como uma oportunidade de liberdade e a julga melhor do que aquelas situações
em que a religião era imposta pelo Estado como religião oficial. Essa nova
situação, porém, exige que cada pessoa faça sua opção, dentro de um
conjunto de possibilidades diversas que lhe são oferecidas.
- Alguns optam por uma religião individual, interior, tão pessoal
que abandona as práticas comunitárias e se torna uma "religião invisível",
feita apenas de algumas crenças. Em casos extremos, chega-se a dizer
"minha religião sou eu" ou a conceber a Deus como a realidade que
cada um encontra no mais íntimo de si mesmo. Em geral, como já vimos, a
religião é concebida como busca de felicidade imediata, próxima do
hedonismo, e não mais como consciente adesão à vontade do Senhor e
Criador.
- Outros, ao contrário, recusam o individualismo e o subjetivismo.
Preferem, talvez com certa nostalgia, tentar reencontrar a situação
tradicional, em que havia uma só religião e todos acreditavam nela.
Aderem, por isso, a Igrejas ou Movimentos "fundamentalistas", que
têm a pretensão de apresentar a verdade em seus fundamentos ou origens.
Trata-se geralmente de grupos fechados e autoritários, que não admitem
discussões sobre sua doutrina e disciplina interna, mas, em troca, oferecem
certeza, segurança e apoio a seus membros.
- Outros ainda se voltam para formas espontâneas de busca e manifestação
do sagrado ou para o esoterismo, o ocultismo, a magia, a crença na
reencarnação. Rejeitam não somente as formas institucionalizadas das
grandes religiões, como também a racionalidade científica. Tal fenômeno
não acontece apenas nas populações com pouca ou nenhuma instrução
escolar. Atinge até mesmo cientistas e pessoas de formação universitária.
- Finalmente, a maioria continua ainda aderindo à religião tradicional
(no Brasil, ao catolicismo). Esta adesão, porém, não é total, por haver
restrições subjetivas ("aceito isso, mas não aceito aquilo"):
é o caso das chamadas "adesões parciais". Pode até assumir traços
do fundamentalismo: sou católico, mas segundo uma interpretação literal
da Bíblia e da doutrina.
- Para o católico, a melhor resposta a esta situação
não é
simplesmente conservar a religião tradicional, mas renovar sua adesão
ao Cristo na Igreja católica, tornando-a mais consciente e responsável,
enraizada na profunda experiência de Deus, iluminada por sua Palavra e
partilhada na vivência comunitária e sacramental, atenta ao magistério da
Igreja. Isto, de fato, já acontece em grande escala em paróquias,
comunidades de base e movimentos. Mas é necessário tomar consciência de
que - na sociedade atual e sempre mais no futuro - a fé católica será
profundamente personalizada, assumida, enraizada na experiência de Deus, ou
não... será.
3. FORÇA E FRAQUEZAS DOS CRISTÃOS
Nos últimos anos, após a publicação da Exortação do Papa João Paulo
II sobre "Vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo", que
concluiu o Sínodo dos Bispos de 1987, alguns fatos têm marcado a situação
dos cristãos entre nós, e especificamente dos católicos. Antes de tudo,
constatamos uma intensa busca de espiritualidade, mesmo se algumas de
suas expressões pareçam mais reação de desencanto com a sociedade e
procura de consolo do que experiências religiosas profundas. Esta busca
manifesta-se tanto no mundo católico como fora dele. É caracterizada, como já
notamos, por evidente pluralismo e subjetivismo. O resultado é que o próprio
mundo católico se tem diferenciado ainda mais. Multiplicaram-se os novos
movimentos e retomaram vigor as antigas associações e as tradições
religiosas populares. Surgiram muitas iniciativas pastorais inéditas,
solicitadas pela diferenciação da sociedade brasileira e o aparecimento de múltiplas
carências e aspirações. Também aumentou significativamente a busca de
formação teológica, até de nível superior, por parte de leigos e leigas.
Cresce igualmente um clima favorável ao ecumenismo e ao diálogo entre
as religiões, apesar de resistências de grupos radicais, por um lado,
e apesar das tendências de nivelar e confundir toda e qualquer experiência
religiosa, por outro lado. Os não católicos representam hoje, no meio
urbano, 20%, ou mais, da população, o que significa também que nossos fiéis
freqüentemente se encontram e dialogam com pessoas de outros credos, sendo
muitas vezes questionados em sua própria fé. O diálogo ecumênico e
inter-religioso deixa de ser um assunto de poucos, para tornar-se uma experiência
cotidiana e permanente de muitos.
A presença dos católicos militantes na sociedade passou também
por transformações significativas, sobretudo depois de 1985, com a
redemocratização do País, e da Constituição Federal de 1988. Houve opções
diferentes. Alguns deixaram comunidades eclesiais e organizações pastorais
para ingressar nos partidos, levando no coração a inspiração cristã
para a luta política. Outros permaneceram nas CEBs, nas pastorais sociais e
nos movimentos populares, procurando promover formas alternativas de
organização do povo, em favor de seus direitos, sua saúde, educação e
sobrevivência. Outros participam ativamente da construção da cidadania,
atuando nos Conselhos Municipais, tutelando crianças e adolescentes e
promovendo os direitos humanos. Numa sociedade em que as estruturas econômicas
e políticas estão perdendo suas referências éticas, os cristãos
empenhados nela estão exigindo apoio e acompanhamento espiritual e
solidariedade mais efetiva por parte dos pastores e da comunidade eclesial.
Fenômeno importante é o crescimento dos movimentos eclesiais, uns
são originários de outros Países, outros são nascidos entre nós. Eles
trouxeram muitas pessoas à experiência de Deus, ao encontro pessoal com
Cristo, à opção de fé e à volta à Igreja. Conseguem ter uma grande força
convocatória e aglutinadora. E muitas pessoas, a partir dessa experiência
de conversão, reencontram o amor à Igreja e o engajamento nas pastorais. O
entusiasmo da descoberta faz que muitos vejam a Igreja sob o prisma do
movimento e tenham dificuldade de integrar-se nas comunidades eclesiais. Há
casos de tensões e até conflitos. O Papa e os Bispos desejam que os
movimentos possam, no diálogo e na caridade, dar testemunho de uma comunhão
"sólida e convicta" com a caminhada pastoral da Igreja Particular
e crescer na estima recíproca com todas as formas de apostolado.
As paróquias, especialmente no meio urbano, viram, nos últimos
anos, multiplicar-se suas atividades, para atender ao crescente número de
fiéis e, sobretudo, à demanda mais exigente tanto de orientação espiritual
como de serviços de obras sociais. Daí resulta a sobrecarga dos párocos,
especialmente quando não há por parte deles a disposição de delegar
responsabilidades e descentralizar serviços. A multiplicidade de expressões
comunitárias e de grupos, associações, movimentos e pastorais expressa a
vitalidade de muitas paróquias, mas também provoca certa fragmentação da
pastoral e falta de harmonia. Diante desta tendência, procura-se intensificar
o planejamento participativo e revalorizar os Conselhos Pastorais. O esforço
de descentralizar a paróquia, para torná-la uma "rede de comunidades e
movimentos", está presente em várias dioceses. Em geral, continuam
numerosas e ativas as CEBs, que estão procurando com mais empenho compreender
e valorizar a religiosidade popular e abrir-se mais intensamente à dimensão
missionária e ao diálogo com os Movimentos Eclesiais.
Na ausência de estatística mais completa, é difícil dizer se
o número
dos agentes de pastoral aumentou na última década. O número das paróquias
é superior a 8.000 (oito mil). Pode-se estimar em 70.000 (setenta mil) o número
das comunidades que realizam aos domingos a celebração da Palavra, na ausência
do padre, que aí celebra a Eucaristia somente algumas vezes por ano. O número
dos e das catequistas se situa entre 300.000 e 350.000. Um contingente ainda
maior de leigos e leigas assume outros ministérios, como a animação da
comunidade e da liturgia, as pastorais sociais, o ministério extraordinário
do Batismo e da distribuição da Comunhão Eucarística, da Palavra, das Exéquias
e a função de Assistentes Leigos do Matrimônio. Em média, atualmente,
para cada presbítero, as comunidades dispõem de mais de 50 (cinqüenta)
leigos, exercendo tarefas ou ministérios pastorais.
Entre os agentes de pastoral, destaca-se a presença e atuação das
mulheres, que constituem o contingente maior. Elas participam em todos
os setores da vida e da missão da Igreja e estão esboçando um traço novo
no rosto eclesial através da maneira generosa e entusiasmada com que vivem
a fé e o amor, buscando transmitir os valores cristãos. As mulheres
constituem a grande maioria dos catequistas; assumem responsabilidades nas
comunidades, na animação, coordenação e entre-ajuda; coordenam setores
pastorais; estão presentes nos conselhos e nos movimentos, participando
ativamente das decisões . Nos últimos anos, elas começaram a
exercer o aconselhamento espiritual, bem como o ensino da teologia.
Quanto ao número de presbíteros, os últimos tempos foram marcados pelo
aumento
do clero diocesano que teve cerca de 4.500 ordenações nos últimos
quinze anos. Atualmente temos um total de cerca de 16.000
padres: um para cada 10.000 habitantes. Esta relação se mantém estável
nos anos ‘90. Mas ela é consideravelmente mais grave que a relação
padre/habitantes de 1960 (1 padre para 6.284 habitantes). O número dos
presbíteros não acompanhou o aumento da população nas décadas de ’60,
’70 e ’80, também em decorrência da diminuição do número de missionários,
que em 1960 representavam 42% do clero e hoje, apenas 22%. Assim, em geral,
o presbítero se acha, por um lado, solicitado a assumir novas tarefas; por
outro, é mais sobrecarregado em seu dia-a-dia e tem menos tempo para
dedicar às pessoas. É urgente repensar as prioridades do ministério
presbiteral, bem como buscar novos modelos, tendo em vista a
corresponsabilidade de todos os cristãos na ação evangelizadora e uma
melhor adequação do padre às exigências da comunidade eclesial e da
sociedade.
- Finalmente, alegramo-nos porque o Projeto de Evangelização "Rumo
ao Novo Milênio", com que procuramos responder ao apelo da Carta
apostólica de João Paulo II sobre "Tertio Millennio Adveniente"
e preparar o Grande Jubileu do Ano 2000 e a celebração dos 500 anos da
Evangelização do Brasil, tem encontrado adesão pronta e generosa tanto do
clero quanto do laicato, revelando novas possibilidades de ação pastoral e
grande criatividade na evangelização.
- Todas essas situações, ricas de promessas e potencialidades, mas também
necessitadas de discernimento melhor e de novas orientações, solicitam-nos
recordar alguns fundamentos teológicos, especialmente a partir do
Concílio Vaticano II, e traçar algumas diretrizes práticas. É o
que desejamos oferecer às comunidades eclesiais e aos cristãos e cristãs,
para que, em espírito de diálogo com os pastores, continuemos juntos a
procurar respostas corajosas, livres e criativas aos apelos de Deus e dos
irmãos.
II – A MISSÃO DO POVO DE DEUS
Fundamentos teológicos
1. A MISSÃO
A Igreja é chamada por Deus a realizar uma missão
no mundo. Tal
missão, prosseguimento da prática de Jesus Cristo, que "não veio
para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de todos", é
o serviço que ela deve prestar. A compreensão da missão da Igreja
vai aprofundando-se na medida em que a Igreja presta atenção aos
"sinais dos tempos" e às mudanças na história humana. Podemos
medir os passos dados pela Igreja na compreensão de si mesma e da sua missão,
se considerarmos os avanços do Magistério e da reflexão eclesial desde o
Concílio Vaticano II até hoje.
A MISSÃO, OBRA DE DEUS
- O Concílio Vaticano II proferiu diversas afirmações importantes sobre
a missão da Igreja. A constituição Lumen Gentium declara: "a
Igreja é, em Cristo, como que sacramento, isto é, sinal e
instrumento, da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero
humano" . A constituição Gaudium et Spes acrescenta que
"a Igreja é ‘o sacramento universal da salvação’, manifestando
e atuando simultaneamente o mistério do amor de Deus pelos homens";
ou seja, não é apenas sinal, mas já, de algum modo, realização do Reino de Deus.
- Para explicar a identidade da Igreja, a Lumen Gentium, no capítulo
I, mostra a Igreja como fruto da missão do Filho e do Espírito Santo,
enviados pelo Pai. Está aí um elemento fundamental da teologia da missão!
A missão não é, antes de tudo, obra da Igreja, mas ação
de Deus. O Pai é fonte da missão e atua no mundo através do Filho e do
Espírito Santo. Neste tempo, que intercorre entre a primeira vinda de
Cristo e seu retorno glorioso, o protagonista da missão é o
Espírito Santo.
A MISSÃO, SERVIÇO DO REINO
- Em relação à missão, outra afirmação importante do Concílio
Vaticano II é que "toda a Igreja é missionária e a obra da
evangelização é um dever fundamental do povo de Deus".
Mas o próprio Concílio, sob a influência da teologia que o precedeu,
acentuou a concepção da missão como "implantação da
Igreja". Ora, exatamente naqueles anos, a realidade das
"missões", especialmente nos Países do chamado "Terceiro
Mundo", e a reflexão teológica passavam por mudanças rápidas e
profundas. Após o Concílio, a teologia cristã insistiu de forma enfática
sobre a necessidade de assumir a missão não só como "implantação
da Igreja", mas também como "serviço ao mundo",
ou, mais propriamente, ao Reino de Deus e à "Paz" (shalom)
que este traz à humanidade. Tal concepção encontrou ampla receptividade
também na América Latina, onde foi destacado o empenho dos cristãos na
luta pela justiça e pela libertação humana, o que aliás tinha sido
reconhecido pelos Sínodos de 1971 e 1974.
MISSÃO E DIÁLOGO
- Outro aspecto que, a partir do Sínodo de 1974, teve ampla repercussão
na reflexão sobre a missão foi o diálogo inter-religioso. O Concílio
Vaticano II e o Papa Paulo VI já haviam insistido sobre a necessidade do
diálogo com a sociedade contemporânea e com as outras Igrejas cristãs.
Em particular, no contexto do tema da liberdade religiosa, o Concílio
afirma: "A verdade deve ser buscada pelo modo que convém à
dignidade da pessoa humana e da sua natureza social, isto é, por meio de
uma busca livre, com a ajuda do magistério ou do ensino, da comunicação
e do diálogo, com os quais os homens dão a conhecer uns aos
outros a verdade que encontraram ou julgam ter encontrado, a fim de se
ajudarem mutuamente". "O diálogo não nasce de táticos
interesses, mas é uma atividade que apresenta motivações, exigências,
dignidade própria: é exigido pelo profundo respeito por tudo o que o Espírito,
que sopra onde quer, operou em cada homem. Por ele, a Igreja pretende
descobrir as sementes do Verbo", os "fulgores daquela realidade
que ilumina todos os homens" – sementes e fulgores que se abrigam
nas pessoas e nas tradições religiosas da humanidade".
MISSÃO É EVANGELIZAÇÃO
- O progresso da reflexão no Magistério e na consciência da Igreja
levou a destacar o tema da evangelização, como o que melhor
exprime a própria missão da Igreja, mas ao mesmo tempo a sublinhar como
ela é "realidade rica, complexa e dinâmica", que não pode ser
definida apenas a partir de um ou outro de seus aspectos, sem correr o
risco de a empobrecer e, até mesmo, de a mutilar. A Evangelii
Nuntiandi procura exatamente expor os aspectos essenciais da
evangelização, em continuidade ao Vaticano II.
- Após a Evangelii Nuntiandi, a reflexão prosseguiu nas Conferências
Episcopais Latino-Americanas de Puebla (1979) e Santo Domingo (1992), na
Encíclica Redemptoris Missio (1990), sobre a validade permanente
do mandato missionário, e em outros eventos e documentos. Não deve
surpreender que esta reflexão possa e deva prosseguir, descobrindo
novos aspectos da missão da Igreja. Pois esta não consiste apenas em
anunciar uma mensagem do passado, mas em reconhecer os "sinais dos
tempos" e em "interpretá-los à luz do Evangelho; para que
assim (a Igreja) possa responder, de modo adaptado a cada geração, às
eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da
futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e
compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e
o seu caráter tantas vezes dramático". O que o Vaticano II procurou
fazer em seu tempo, a Igreja deve realizá-lo permanentemente, atenta aos
novos problemas e anseios da humanidade.
A NOVA EVANGELIZAÇÃO
- Alguns problemas suscitados pela teologia da missão após o Concílio são
examinados criticamente pelo Papa João Paulo II na encíclica Redemptoris
Missio sobre a validade permanente do Mandato missionário. Desta Encíclica,
é particularmente importante para nós destacar o que ela diz sobre a
"nova evangelização". Já Paulo VI considerava necessário
retomar a evangelização para superar a ruptura entre o evangelho e a
cultura, a fé e a vida. O Papa julga-a necessária nos Países "onde
grupos inteiros de batizados perderam o sentido vivo da fé, não se
reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de
Cristo e de seu Evangelho". Em nosso País, como em geral na América
Latina, embora haja situações muito diversificadas, não há dúvida de
que uma "nova evangelização" é imprescindível. Ela será
inspirada pela consciência das exigências da evangelização que a
Igreja adquiriu nas últimas décadas, mas deverá também prestar contínua
atenção às mudanças que vão acontecendo e aos novos desafios que
surgem.
A EVANGELIZAÇÃO NAS DIRETRIZES DA IGREJA NO BRASIL
- Como referência, no Brasil, temos a visão da evangelização
amplamente desenvolvida nas "Diretrizes Gerais da Ação
Evangelizadora", fruto da Assembléia da CNBB de 1995. Salientam-se
nelas quatro aspectos essenciais para a evangelização inculturada: serviço,
diálogo, anúncio e testemunho de comunhão, que têm
fundamento no Novo Testamento.
- Esta opção das Diretrizes foi justificada no próprio texto e se
fundamenta principalmente em duas razões: o seu caráter prático,
que provém da experiência da própria Igreja antiga e se presta a
descrever eficazmente as grandes tarefas da Igreja no mundo de hoje; a sua
capacidade de expressar, melhor do que outras formulações, a
novidade da prática inaugurada por Jesus, confiada a seus discípulos.
- Outra forma de descrever a missão de Cristo e da Igreja prevaleceu na
teologia moderna e foi assumida pelo Vaticano II. Ela nasceu da vontade de
ressaltar a continuidade do plano de Deus, relacionando a figura de Cristo
com o primeiro - ou "antigo"- Testamento. Naquele contexto, o
povo de Deus foi guiado por profetas, sacerdotes e reis. Na nova Aliança,
tudo converge para Cristo que é, ao mesmo tempo, profeta, sacerdote e
rei. Todo o povo de Deus se torna profético, sacerdotal e real. Daí, os
teólogos modernos deduziram uma descrição da ação pastoral da Igreja,
que distingue o múnus profético como ministério da Palavra de
Deus, o múnus sacerdotal como ministério litúrgico ou do culto,
o múnus real (régio) como ministério do governo ou pastoreio do
Povo do Deus.
- Nesta segunda parte do nosso documento, baseada sobre a doutrina do Concílio
Vaticano II e voltada para a exposição dos fundamentos teológicos,
conservamos a descrição da missão da Igreja como tríplice múnus: profético,
sacerdotal e real. Desta maneira se acentua mais a constituição do
povo de Deus. Na terceira parte, voltada para as orientações práticas,
retomaremos a descrição das exigências da evangelização, conforme as
Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, acentuando principalmente a missão
confiada à Igreja.
- Nessa visão, a Igreja é chamada a anunciar a salvação em
Cristo e o Reino de Deus, mas só pode fazê-lo demonstrando sua
solidariedade e sua disposição de serviço para com toda a
humanidade, sua atitude de diálogo na busca da verdade e sua
capacidade de gerar comunidades onde já se vive de algum modo aquela comunhão
com Deus e com os irmãos, que é realização germinal do Reino de Deus.
- Urge compreender e frisar como essas diversas exigências se
interligam e são expressões necessárias da única missão. Não
seria autêntica uma evangelização que se limitasse a promover a libertação
humana, sem anunciar o Reino de Deus e a salvação em Cristo. E,
vice-versa, não seria legítimo um anúncio do Reino que não mostrasse
de algum modo os sinais da libertação do ser humano face aos males que o
oprimem.
ANÚNCIO DO EVANGELHO E SINAIS DE SOLIDARIEDADE
- A Igreja deve, como Jesus, anunciar o Reino de Deus e chamar para
a conversão, mas deve também, como Jesus, realizar aquelas obras ou
"sinais", que revelam o amor de Deus pela humanidade através
do poder do Espírito. Outra formulação, muito densa e bela, da missão
da Igreja foi-nos oferecida pelo Papa João Paulo II na Encíclica Evangelium
Vitae, sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana. Dizendo
"o Evangelho do amor de Deus pelo homem, o Evangelho da dignidade da
pessoa e o Evangelho da vida são um único e indivisível
Evangelho", o Papa une o anúncio de Cristo (o amor de Deus pelo
homem) com o empenho da Igreja pela vida humana em todas as suas dimensões.
Cristo, nossa esperança, é a vida em plenitude: este é o coração
da mensagem evangélica e o conteúdo fundamental da missão da Igreja, do
serviço que ela presta à humanidade.
- As mesmas preocupações estão evidentes no tema escolhido pelo Papa e
na Exortação pós sinodal do Sínodo dos Bispos para a América, Ecclesia
in America. O Sínodo, por um lado, convoca os povos da América para
o encontro com Jesus Cristo vivo. Por outro, demonstra a solidariedade
dos cristãos com todos os cidadãos, particularmente com os mais
sofridos. Condição para realizar esta missão da Igreja é a comunhão
eclesial, testemunho de unidade dos cristãos entre si e com o
próprio Cristo.
- Especialmente diante do "mundo" e diante dos que estão
distantes de Cristo e do seu Evangelho, a solidariedade da Igreja com
todos os seres humanos, sem discriminação, e os serviços que ela presta
são os "sinais" hoje indispensáveis. A Igreja confia essas
tarefas a todos os seus membros. A presença animadora e esclarecedora dos
presbíteros é fundamental para superar a dificuldade de reconhecer a
dimensão da fé e da caridade no social, no político e na luta pela
justiça. A própria Santa Sé, através dos Conselhos "Justitia et
Pax" (Justiça e Paz), "Cor Unum" (Um só coração) e da
Fundação Populorum Progressio, busca promover o diálogo entre povos em
conflito, a reconciliação entre nações e etnias divididas por antigos
rancores, promover o desenvolvimento social, defender os direitos dos mais
fracos, socorrer as populações em perigo. O Santo Padre pessoalmente,
com suas homilias e suas viagens, tem procurado levar, junto com a palavra
do Evangelho, forte apelo à justiça e à paz.
A COMPETÊNCIA DOS LEIGOS
- Não há dúvida de que a tarefa de promover a justiça e a paz, de
efetivamente prestar solidariedade e serviço aos irmãos, especialmente
aos mais necessitados, é em primeiro lugar responsabilidade dos cristãos
que têm competência na economia, na política, nas relações
internacionais, no sindicato, nas organizações assistenciais, nos
movimentos populares, nas pastorais sociais. O Concílio tinha consciência
disso. Na Constituição Lumen Gentium afirma que na tarefa de
impregnar o mundo do espírito de Cristo e fazer que "atinja mais
eficazmente o seu fim na justiça, na caridade e na paz, [...] c
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ompete
aos leigos a principal responsabilidade". E reconhece que
"os leigos são chamados de modo especial a tornar presente e
operante a Igreja naqueles lugares e circunstâncias, onde ela só por
meio deles pode vir a ser sal da terra". O que significa que os
leigos devem agir especialmente lá onde têm competência e preparo específico.
- Em nosso País, muitas vezes de forma humilde e escondida, outras vezes
através de uma atuação pública e destemida, muitos leigos e leigas
cristãos lutaram e lutam pela justiça e a paz, dando corajoso testemunho
evangélico e contribuindo para o serviço do mundo, cuja responsabilidade
última cabe a todo o povo de Deus. Ao mesmo tempo, leigos e leigas
contribuem para a edificação da comunidade eclesial, à qual prestam
muitos serviços ou ministérios com generosidade e competência. Dessa
forma, a missão evangelizadora da Igreja é realizada por todo o povo
de Deus, com sua variedade de vocações e ministérios - ministros
ordenados, consagrados e consagradas, leigos e leigas - que se harmonizam,
sem confundir-se, na realização da tarefa comum.
2. O POVO DE DEUS
2.1. IGREJA DA TRINDADE SANTA
- A Igreja tem consciência de ser uma presença diferente no mundo.
Ela sabe que está no mundo, mas não é do mundo. Sua raiz última é o
mistério insondável do Pai, que, por Cristo e no Espírito, quer que
todos os homens e mulheres participem de sua vida de infinita e eterna
comunhão, na liberdade e no amor, vivendo como filhos e filhas, irmãos e
irmãs. Por isso, o Concílio nos ensina que a Igreja não é simplesmente
uma "sociedade" ao lado de outras, mas um mistério de
comunhão: "Este é o sagrado mistério da unidade da Igreja, em
Cristo e por meio de Cristo, enquanto o Espírito Santo opera a variedade
dos dons. O supremo modelo e princípio deste mistério é a unidade na
Trindade das pessoas de um só Deus Pai e Filho no Espírito Santo".
A Igreja toda aparece como "o povo reunido na unidade do Pai e do
Filho e do Espírito Santo".
MISTÉRIO DE COMUNHÃO
- Nunca é demais, portanto, recordar e insistir que a Igreja é, em
primeiro lugar, um mistério de comunhão, que reflete, com
as limitações de seus membros e os limites do tempo e do espaço, o mistério
da comunhão trinitária. A comunhão trinitária torna-se, então, fonte
da vida e da missão da Igreja, modelo de suas relações e meta última
de sua peregrinação.
2.2. POVO DE DEUS
- Logo após ter apresentado a Igreja como "mistério" (cap. 1º
da Lumen gentium), o Vaticano II apresenta a Igreja como
"Povo de Deus" (cap. 2º da Lumen gentium). Estas
duas noções não estão justapostas nem sobrepostas, mas intimamente
relacionadas: se a primeira "fala da Igreja em toda a sua amplitude,
desde o início da criação no desígnio de Deus, até à consumação
celeste..., a outra trata do mesmo mistério, enquanto, no tempo intermédio
entre a Ascensão do Senhor e a sua Parusia gloriosa, caminha para a meta
bem-aventurada". O mistério de comunhão exprime-se no tempo – que
está entre o primeiro e o segundo Advento do Filho – na comunhão
articulada do Povo de Deus. Esta expressão evoca diferentes aspectos da
complexa realidade que é a Igreja.
POVO LIVRE E FRATERNO
- Antes de tudo, a expressão Povo de Deus faz-nos remontar a um momento
decisivo das buscas religiosas da humanidade, quando o anseio humano do
Absoluto se vê inesperadamente surpreendido e superado pelo advento
gratuito da divina revelação: a revelação do nome de Javé a Moisés e
a experiência do Êxodo, cujo resultado é, através da celebração
da Aliança, a constituição de Israel em povo de Deus. À
exigência de uma adesão incondicional e exclusiva a Javé - "não
terás outro deus além de mim" - corresponde o amor ao próximo. A
expressão concreta deste preceito central é a solidariedade com o pobre
. Com efeito, Javé, como não se cansarão de repetir os profetas, é
Deus dos pobres! Justamente por isso, o significado do Êxodo e da Aliança
é ao mesmo tempo religioso (revela o rosto de Deus como sumamente próximo
e soberanamente transcendente) e social (revela e tutela a dignidade de
todo ser humano, sobretudo dos pobres, propondo o estatuto ideal de um
povo livre e solidário). A posse da terra - dom de Deus a seus filhos -
deve ser o "sacramento" a garantir a liberdade, a dignidade e a
segurança conquistadas através do Êxodo. O Êxodo tinha por meta a
liberdade e a fraternidade perfeitas entre os israelitas, filhos e filhas
de Deus, que é Deus da vida! A nova e perfeita Aliança, porém, só
se dará em Cristo: "Foi Cristo quem instituiu a nova Aliança
(...) no seu sangue, chamando um povo que junto crescesse para a unidade,
não segundo a carne, mas no Espírito, e fosse o novo Povo de Deus (...)
Este povo messiânico tem por cabeça Cristo (...). Tem por condição a
dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações habita o
Espírito Santo como num templo. Sua lei é o mandamento novo de amar
(...). Sua meta é o Reino de Deus".
POVO QUE ABRE CAMINHO PARA O SERVIÇO
- Em segundo lugar, a expressão Povo de Deus recorda que a Igreja
é
uma realidade histórica, fruto da livre iniciativa de Deus e da livre
resposta dos seres humanos. Por isso, ela não pode furtar-se, em nenhuma
circunstância, sobretudo nas grandes crises históricas - aquelas que
marcam as viradas de civilização e de cultura, como a que estamos
vivendo hoje - ao dever de fazer escolhas e de abrir caminhos.
- Situada, na verdade, entre a primeira vinda do Senhor Jesus em nossa
carne mortal e sua segunda vinda em sua glória imortal, a Igreja
participa, de um lado, da transitoriedade deste mundo, cuja
"figura passa", e, de outro lado, da definitividade de Deus, que
um dia será "tudo em todos". Os discípulos, que outrora o
acolheram na carne humilde e pobre de Jesus de Nazaré através da fé,
precisam agora acolhê-lo através do amor na carne desprezada e
descartada dos famintos, sedentos, migrantes, despojados, doentes e
encarcerados, "esperando contra toda esperança". O
peregrinar da Igreja entre a Ascensão e a Parusia percorre, na força do
Espírito, os passos de Jesus, que foi ungido pelo Espírito para
"evangelizar os pobres, proclamar a remissão aos presos e aos cegos
a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para
proclamar um ano de graça do Senhor". A Igreja não pode perder de
vista o serviço à vida e à esperança, no amor e na liberdade, que é,
neste mundo, seu horizonte maior!
MAIS IMPORTANTE É O QUE NOS UNE: A CONDIÇÃO CRISTÃ
- A expressão Povo de Deus indica, em seguida, a Igreja
"em sua
totalidade", ou seja, naquilo que é comum a todos os seus
membros. Esta foi, sem dúvida, uma das maiores aquisições do
Vaticano II e deve fazer valer todo o seu peso quando se trata de refletir
sobre missão da Igreja e ministérios dos cristãos e cristãs leigos. Ao
colocar, na Lumen Gentium, antes dos capítulos sobre a hierarquia
(cap. III) e o laicato (cap. IV), o capítulo sobre o Povo de Deus (cap.
II) – onde se sublinha tudo o que é comum a todos os membros da Igreja
- o Vaticano II superou a concepção de Igreja como "sociedade
desigual", que favorecia aquela distância entre hierarquia e
laicato, que o Novo Testamento não conhecia e que se revelou prejudicial
para o testemunho cristão no mundo.
- A noção de Povo de Deus, com efeito, exprime a
profunda unidade, a
comum dignidade e a fundamental habilitação de todos os membros da
Igreja à participação na vida da Igreja e à corresponsabilidade na
missão. Antes e além de toda e qualquer diferenciação carismática
e ministerial, está a condição cristã, que é comum a
todos os membros da Igreja. O texto conciliar que exprime com maior eficácia
esta profunda unidade e comum dignidade de todos os membros do Povo de
Deus está situado justamente no capítulo da Lumen gentium
dedicado aos leigos: "Um é pois o povo eleito de Deus: ‘um só
Senhor, uma só fé, um só batismo’. Comum a dignidade dos membros pela
regeneração em Cristo. Comum a graça de filhos. Comum a vocação à
perfeição. Uma só a salvação, uma só a esperança e indivisa a
caridade. Não há, pois, em Cristo e na Igreja, nenhuma desigualdade em
vista de raça ou nação, condição social ou sexo, porquanto ‘não há
judeu ou grego, não há servo ou livre, não há varão ou mulher, porque
todos vós sois um em Cristo Jesus’".
- Faz parte desta condição comum – dada pela fé, esperança e
caridade e pelos sacramentos do batismo, da crisma e da eucaristia – a
participação de todo o Povo de Deus nas funções profética, sacerdotal
e real de Cristo.
PARTICIPAÇÃO NA FUNÇÃO PROFÉTICA
- O Povo de Deus participa da função profética de Cristo
"pela difusão de seu testemunho vivo, sobretudo através de uma vida
de fé e caridade, e pelo oferecimento a Deus do sacrifício de louvor,
fruto de lábios que confessam o seu nome". Além disso, graças à
unção do Espírito Santo, "o conjunto dos fiéis (...) não pode
enganar-se no ato de fé e manifesta esta sua peculiar propriedade
mediante o senso sobrenatural da fé de todo o povo quando, "desde os
Bispos até os últimos fiéis leigos", apresenta um consenso
universal sobre questões de fé e costumes. Por este senso da fé,
suscitado e sustentado pelo Espírito da verdade, o Povo de Deus – sob a
direção do sagrado Magistério, a quem fielmente respeita – não já
recebe a palavra de homens, mas verdadeiramente a palavra de Deus;
apega-se indefectivelmente à fé uma vez para sempre transmitida aos
santos; e, com reto juízo, penetra-a mais profundamente e mais plenamente
a aplica à vida". À função profética pertencem as várias
modalidades de relação entre a comunidade dos fiéis e a palavra de Deus:
sua acolhida na fé, sua vivência no amor, seu testemunho exterior, seu
aprofundamento pela catequese e pela reflexão teológica, a denúncia em
seu nome, o anúncio pela pregação, sua meditação na oração pessoal,
sua celebração na liturgia comunitária. A pregação da palavra não
foi confiada somente a alguns, mas a todos. A palavra cria e reúne
constantemente a Igreja, despertando nela a fé e a obediência; e é da
Igreja que a palavra deve sempre de novo sair para que ela ressoe em toda
a terra. Aqueles que foram ‘chamados’ pela palavra devem não só
testemunhá-la, mas pregá-la, segundo o carisma próprio a cada um. Com
efeito, "todos ficaram repletos do Espírito Santo, e proclamavam com
firmeza a palavra de Deus", realizando, assim, o desejo de Moisés e
as promessas dos profetas: "Oxalá todo o povo de Deus fosse profeta,
dando-lhe Javé o seu Espírito!"
PARTICIPAÇÃO NA FUNÇÃO SACERDOTAL
- A participação no sacerdócio de Cristo faz da Igreja um
povo sacerdotal. Há, com efeito, um único e indivisível sacerdócio:
o de Jesus Cristo. Seu sacerdócio não é um sacerdócio ritual, nos
moldes do Antigo Testamento. Jesus não pertencia à tribo sacerdotal de
Levi, mas à de Judá: "É bem conhecido, de fato, que nosso Senhor
surgiu de Judá, tribo a respeito da qual Moisés nada diz quando trata
dos sacerdotes"; sua atividade se assemelhava mais à dos antigos
profetas que à dos sacerdotes judeus; as esperanças messiânicas
suscitadas por Sua pessoa e atividade são interpretadas mais na linha de
um messianismo real do que de um messianismo sacerdotal; Ele morre fora do
espaço sagrado da Cidade e do Templo... Seu sacerdócio – segundo a
Carta aos Hebreus - é um sacerdócio existencial e consiste,
fundamentalmente, na entrega de todo o seu ser e existência ao Pai, no
Espírito, e aos irmãos e às irmãs, reconciliando-os com o Pai e entre
si, realizando, assim, uma vez por todas, a perfeita e insuperável mediação
entre Deus e os homens.
- "Aderindo a Cristo sacerdote por meio da fé, deixando-se purificar
por Seu sangue e santificar pela oferta do Seu corpo, entrando no
movimento do seu sacrifício, os cristãos se tornam capazes de dar a Deus
um culto autêntico, que consiste na transformação de sua existência
pela caridade divina". Por sua participação no único sacerdócio
de Cristo, o Povo de Deus da Nova Aliança é conjuntamente sacerdotal.
Com efeito, todos os cristãos são chamados a "oferecer sacrifícios
espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo", a
"elevar incessantemente a Deus, por meio de Jesus Cristo, um sacrifício
de louvor" e a "não se esquecer de fazer o bem e de praticar a
mútua ajuda comunitária, pois estes são os sacrifícios que agradam a
Deus"; por isso, devem "eles próprios apresentar-se a Deus em
sacrifício vivo e santo que lhe seja agradável". A vocação dos
cristãos não os leva "a pôr sua confiança em ritos exteriores,
mas a passar pelo sacrifício existencial de Cristo e valer-se,
assim, de sua mediação sacerdotal". O Catecismo Tridentino explica
esta realidade do sacerdócio comum dos fiéis num texto particularmente
iluminante: "No que diz respeito ao sacerdócio interior, todos os fiéis,
após terem sido purificados pela água salutar, são chamados sacerdotes;
sobretudo, porém, os justos, que têm o Espírito de Deus e que, pelo dom
da graça de Deus, foram feitos membros vivos de Jesus Cristo Sumo
Sacerdote. Estes, de fato, graças à fé, que se faz ardente pela
caridade, imolam a Deus vítimas espirituais no altar do próprio coração;
neste gênero, devem ser consideradas todas as ações boas e honestas,
que se endereçam à glória de Deus". O sacerdócio comum é, pois,
um sacerdócio comum a todos os fiéis, isto é, a todos os batizados
enquanto professam e vivem a fé. Neste sentido, não é nenhum ministério,
mas "o culto cristão existencial, que consiste na transformação
da totalidade da vida por meio da caridade divina". É, portanto, a
própria vida cristã, feita de fé, de esperança e de caridade. É a vivência,
suscitada e sustentada pelo Espírito, da vocação universal à
santidade, colocando-se a serviço de Deus e de seu Reino, como
prosseguimento, na força do Espírito, da prática de Jesus!
PARTICIPAÇÃO NA FUNÇÃO REAL
- A função real é a expressão mais densa das múltiplas e
complexas relações que se dão entre a Igreja e o Reino de Deus.
Além de centro e resumo, "a proclamação e a instauração do Reino
de Deus são o objetivo da missão de Jesus: ‘pois foi para isso que fui
enviado’". Em Jesus, o Reino de Deus está próximo e é já
realidade presente. O Reino de Deus, na verdade, é um acontecimento que
coincide com a pregação e o ministério de Jesus, sendo ele mesmo a Boa
Notícia: através do anúncio e da práxis de Jesus, Deus mesmo intervém
de maneira decisiva e definitiva na história humana. A vinda do Reino é
reconhecível pela fé nos sinais que Jesus realiza: no sentar-se à mesa
com os pecadores, nos milagres, nos exorcismos, na escolha dos Doze, no anúncio
da Boa Nova aos pobres, no reconhecimento e valorização da dignidade das
mulheres, nos gestos de salvação e libertação em favor dos pobres,
humildes e pecadores. O Reino de Deus é, sem dúvida, um acontecimento
que se manifesta no coração humano – pois é interior a relação com
Deus pela fé e pela conversão – mas também se manifesta nas relações
entre as pessoas e nas estruturas que lhes correspondem. No centro do
acontecimento do Reino, está, de um lado, a autocomunicação de Deus que
é Pai – com o qual Jesus vive intimidade única, a ponto de chamá-lo
Abbá-papai – e, de outro, a sua predileção pelos pobres, pelos últimos,
pelos pecadores. Esta experiência de Jesus tem conseqüências seja para
a atitude religiosa do ser humano – uma atitude filial de confiança, de
simplicidade, de abandono total – seja para a sua prática social, que
descobre o outro – sobretudo o último, o pequeno, o pobre, o inimigo, o
estrangeiro – como irmão. Por isso, "o Reino diz respeito a todos:
às pessoas, à sociedade, ao mundo inteiro; trabalhar pelo Reino
significa reconhecer e favorecer o dinamismo divino que está presente na
história humana e a transforma; construir o Reino quer dizer trabalhar
para a libertação do mal, sob todas as formas; em resumo, o Reino de
Deus é a manifestação e a atuação de seu desígnio de salvação, em
toda a plenitude".
- O próprio Jesus – tanto em seu ministério terreno como em sua condição
de ressuscitado – enviou os discípulos a proclamarem o Reino de Deus.
A Igreja – que tem o Cristo morto e ressuscitado, por cabeça, a
dignidade e a liberdade dos filhos de Deus por condição, o mandamento
novo de amar como o próprio Cristo nos amou por lei – tem por meta o
Reino de Deus. Este Reino, iniciado pelo próprio Deus na terra, deve
estender-se mais e mais até que no fim dos tempos seja consumado por Ele
próprio, quando aparecer Cristo, nossa vida. Então "a própria
criatura será libertada do cativeiro da corrupção para a gloriosa
liberdade dos filhos de Deus". Neste sentido, a Igreja, embora conheça
"o segredo do Reino" e seja na terra seu germe e início,
"não é fim em si mesma; pelo contrário, deseja intensamente ser
toda de Cristo, em Cristo e para Cristo, e toda dos seres humanos, entre
os seres humanos e para os seres humanos". O Reino de Deus, na
verdade, é maior que a Igreja e que o mundo; está, todavia, presente e
atuante tanto na Igreja como no mundo, embora de forma diferente: na
Igreja, de modo sacramental e consciente; no mundo, de modo oculto e
inconsciente. A Igreja, na verdade, não é o Reino, mas o seu sacramento,
o "Reino em mistério". Enquanto sinal e instrumento do agir
salvífico de Cristo no Espírito, a Igreja não é apenas caminho, mas a
primeira beneficiária da salvação, o primeiro fruto da salvação já
realizada em Cristo e – justamente por isto - a sua serva humilde e
pobre, sempre necessitada de conversão e de renovação. Para isto
existe a Igreja: para o Reino de Deus, que o Cristo glorificado, na
força do Espírito, continua a realizar na história humana, onde a
Igreja "vive entre as criaturas que gemem e sofrem como que dores de
parto até o presente e aguardam a manifestação dos filhos de
Deus". Existindo em si mesma, mas não para si mesma – pois é
sacramento, isto é, sinal e instrumento de salvação e libertação –
"as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos
homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também
as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de
Cristo". Assim como o Filho do Homem "veio, não para ser
servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos", a
Igreja toda deve – cada vez mais – colocar-se "efetiva e
concretamente a serviço do Reino", para que "todos tenham vida
e vida em plenitude". A função real – que tanto no Concílio como
depois dele foi também apresentada como ‘caridade’, ‘serviço’ e
‘liberdade’ – exprime a liberdade dos filhos de Deus em relação a
si mesmos, aos outros e aos bens deste mundo, o que os torna capazes de
amar e servir, sobretudo aos pobres e pequenos, colocando-se a serviço de
Deus e de seu Reino.
UMA SÓ MISSÃO ASSUMIDA POR TODOS
- A expressão Povo de Deus é também apropriada para ressaltar que
a
missão da Igreja não é responsabilidade de alguns, mas de todos. Nascendo das divinas missões do Filho e do Espírito, a Igreja é
missionária: "A Igreja peregrina é por sua natureza missionária.
Pois ela se origina da missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o
desígnio de Deus Pai. Este desígnio provém do "amor fontal"
ou da caridade de Deus Pai, que é o Princípio sem Princípio e do qual
é gerado o Filho e pelo Filho procede o Espírito Santo" . Todo o
Povo de Deus não só é responsável pela vida, mas também pela missão
da Igreja, na Igreja e no mundo. A Lumen Gentium o diz claramente:
"Os sagrados pastores conhecem, com efeito, perfeitamente quanto os
leigos contribuem para o bem de toda a Igreja. Pois eles próprios sabem
que Jesus Cristo não os instituiu para se encarregarem sozinhos de toda a
missão salvadora da Igreja para com o mundo, mas que o seu cargo sublime
consiste em pastorear de tal modo os fiéis e de tal modo reconhecer os
seus serviços e carismas, que todos, cada um segundo o seu modo próprio,
cooperem na obra comum". É neste sentido que se pode falar de
"Igreja toda ministerial", de "corresponsabilidade
diferenciada", de "todos responsáveis na Igreja", de
"Igreja de responsabilidades apostólicas compartilhadas", de
"Igreja toda em serviço", de "comunidade enviada de serviço",
de "comunhão e participação" (Puebla) ou de "comunhão e
missão" (CNBB).
UNIDADE NA DIVERSIDADE
- A expressão Povo de Deus, finalmente, ilumina
a unidade da Igreja na
variedade católica dos carismas, das funções, das Igrejas Particulares,
das tradições, das culturas, que, longe de destruir a unidade da Igreja,
a aperfeiçoam. Com efeito, a plenitude da unidade – suscitada e
vivificada pelo Espírito – é o fundamento de toda possível distinção
na Igreja: "Por instituição divina, a Santa Igreja é estruturada e
regida com admirável variedade. ‘Pois como em um só corpo temos muitos
membros, mas todos os membros não têm a mesma função, assim nós,
embora sejamos muitos, somos um só corpo em Cristo, e somos membros uns
dos outros’".
CARISMAS, SERVIÇOS E MINISTÉRIOS VÁRIOS
- Convém, na verdade, ressaltar que, de uma maneira muito apropriada, a
expressão Povo de Deus evoca a variedade de carismas, serviços e
ministérios que o Senhor reparte entre os fiéis em vista da vida e
da missão da Igreja. Com efeito, a comum incorporação a Cristo e à
Igreja - realizada pelos sacramentos de iniciação - é constantemente
enriquecida por inesgotável pluralidade de carismas, serviços e ministérios.
Esta é a perspectiva do Vaticano II, quando ensina: "Não é apenas
através dos sacramentos e dos ministérios que o Espírito Santo
santifica e conduz o Povo de Deus e o orna de virtudes, mas, repartindo
seus dons "a cada um como lhe apraz", distribui entre os fiéis
de qualquer classe mesmo graças especiais. Por elas os torna aptos e
prontos a tomarem sobre si os vários trabalhos e ofícios, que
contribuem para a renovação e maior incremento da Igreja, segundo estas
palavras: "A cada um é dada a manifestação do Espírito para
utilidade comum". Estes carismas, quer eminentes, quer mais simples e
mais amplamente difundidos, devem ser recebidos com gratidão e consolação,
pois são perfeitamente adequados e úteis às necessidades da Igreja. Os
dons extraordinários, todavia, não devem ser temerariamente pedidos nem
deles devem presunçosamente ser esperados frutos de obras apostólicas. O
juízo sobre sua autenticidade e seu ordenado exercício compete aos que
governam a Igreja. A eles, em especial, cabe não extinguir o Espírito,
mas provar as coisas e ficar com o que é bom".
DOM DE DEUS E BUSCA HUMANA
- Na verdade – no tocante aos ministérios eclesiais – a Igreja,
atenta às indicações do Espírito Santo, em função de suas
necessidades internas e dos desafios da missão no mundo, vai se
estruturando e organizando. O Novo Testamento nos mostra este processo
em curso. Ele não oferece um modelo único do modo de se estruturar a
Igreja. Mostra, isso sim, diversos exemplos, respondendo às demandas dos
diferentes contextos históricos e culturais. Também encontramos no Novo
Testamento informações referentes a épocas distintas. Estes testemunhos
são diversificados: nenhum deles pode ser considerado exclusivo e
excludente dos demais. Por isso, a Igreja, fiel a Cristo e guiada pelo Espírito
Santo, não deveria ter medo de aceitar e de criar novos modelos,
satisfazendo assim às exigências de sua vida e missão nos
diversificados contextos em que atua.
CARISMA E MINISTÉRIO: DISTINGUINDO E UNINDO
- Dois elementos interrelacionados estão subjacentes a todo este
processo: a atuação do Espírito Santo na comunidade dos fiéis
(=dimensão do dom transcendente) e a busca humana das melhores opções
(=dimensão do empenho humano) "para aperfeiçoar os santos em
vista do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo, até que
alcancemos todos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, o
estado de homem perfeito à medida da estatura da plenitude de
Cristo". O exemplo mais claro desta busca ativa e criativa no Espírito
está documentado em At 6,1-6: quando surge o primeiro conflito na
comunidade de Jerusalém (6,1), são os Apóstolos que "convocam a
assembléia dos discípulos" (6,2), conduzem o discernimento e
indicam uma solução (6,2-3), mas é a assembléia que aprova a proposta
dos apóstolos e escolhe os ministros (6,4-5), que, uma vez apresentados
aos apóstolos, recebem deles a imposição das mãos (6,6).
- Alguns textos do Novo Testamento apontam para
uma íntima relação
entre carisma e serviço/ministério. Os mais conhecidos são 1 Cor
12,4-11.28-30; Rm 12,4-8; Ef 4,10-13; 1 Pd 4,10; 2 Tm 1,6. Mais
especificamente: "Há diversidade de dons, mas o Espírito é o
mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos
modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Cada um
recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. A um o
Espírito dá...". "Tendo, porém, dons diferentes, segundo a
graça que nos foi dada, (...)". "É ele que concedeu a uns ser
apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e
mestres...". "Todos vós, conforme o dom que cada um recebeu,
consagrai-vos ao serviço uns dos outros, como bons dispenseiros da
multiforme graça de Deus". "Eu te exorto a reavivar o dom de
Deus, que há em ti pela imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos
deu um espírito de medo, mas espírito de força, de amor e de
sobriedade"!
QUE SE ENTENDE POR MINISTÉRIO?
- Há forte tendência, hoje, na teologia e na prática pastoral, de
considerar ministério, fundamentalmente, o carisma que assume a forma
de serviço à comunidade e à sua missão no mundo e na Igreja e que, por
esta, é como tal acolhido e reconhecido.
- Ministério é, antes de tudo, um carisma, ou seja, um
dom do
Alto, do Pai, pelo Filho, no Espírito, que torna seu portador apto a
desempenhar determinadas atividades, serviços e ministérios em ordem à
sal
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vação. Numa perspectiva trinitária, é preciso ressaltar aqui a
unidade na variedade e a variedade na unidade. Ao falar-se de carismas, não
se deveria privilegiar os mais extraordinários e espetaculares, mas os
que sustentam a fé e ajudam-na a encarnar-se. Ao lado da capacidade de
operar milagres, Paulo recorda o carisma da assistência e do governo da
comunidade. Diante da tentação de excluir da lista dos carismas os serviços
mais humildes e estáveis, Paulo afirma o valor destes serviços, como no
corpo humano, onde os membros menos nobres são os que cercamos de maior
honra. Não se pode esquecer que a função de Apóstolos - aos quais, de
alguma forma, sucedem, na Igreja, os ministros ordenados - situa-se também
no conjunto dos carismas e, em Paulo, vem em primeiro lugar. Na verdade,
todos os carismas, serviços e ministérios de que a Igreja é dotada pelo
Espírito para cumprir a sua missão se complementam, cooperam uns com os
outros e se integram, como os membros de um corpo; no respeito ao princípio
de subsidiariedade.
- Nem todo carisma, porém, é ministério. Certamente, a dimensão do
serviço deve caracterizar todo carisma, e seu portador deve aspirar ao
dom maior, que é o amor. Mas só pode ser considerado ministério o
carisma que, na comunidade e em vista da missão na Igreja e no mundo,
assume a forma de serviço bem determinado, envolvendo um conjunto mais ou
menos amplo de funções, que responda a exigências permanentes da
comunidade e da missão, seja assumido com estabilidade, comporte
verdadeira responsabilidade e seja acolhido e reconhecido pela comunidade
eclesial.
- A recepção ou reconhecimento do ministério pela comunidade eclesial
é essencial ao ministério, porque o ministério é uma atuação pública
e oficial da Igreja, tornando seu portador, num nível maior ou menor, seu
representante. Esta "recepção" ou
"reconhecimento" dos ministérios tem modalidades e graus
diversos, dependendo da natureza da função, ou seja, da sua relação
com a identidade e a missão da Igreja.
TIPOLOGIA DOS MINISTÉRIOS
- Na reflexão teológica e pastoral, têm-se distinguido os seguintes
grupos
de ministérios: a) ministérios simplesmente "reconhecidos"
(às vezes, impropriamente, chamados ministérios "de fato"),
quando ligados a um serviço significativo para a comunidade, mas
considerado não tão permanente, podendo vir a desaparecer, quando
variarem as circunstâncias; b) ministérios "confiados",
quando conferidos ao seu portador por algum gesto litúrgico simples ou
alguma forma canônica ; c) ministérios "instituídos",
quando a função é conferida pela Igreja através de um rito litúrgico
chamado "instituição"; d) ministérios "ordenados"
(também chamados apostólicos ou pastorais), quando o
carisma é, ao mesmo tempo, reconhecido e conferido ao seu portador através
de um sacramento específico, o sacramento da Ordem, que visa a constituir
os ministros da unidade da Igreja na fé e na caridade, de modo que a
Igreja se mantenha na tradição dos Apóstolos e, através deles, fiel a
Jesus, ao seu Evangelho e à sua missão. O ministério ordenado, numa
eclesiologia de totalidade e numa Igreja toda ministerial, não detém o
monopólio da ministerialidade da Igreja. Não é, pode-se dizer, a
"síntese dos ministérios", mas o "ministério da síntese".
Seu carisma específico é o da presidência da comunidade e,
portanto, da animação, coordenação e – com a indispensável
participação ativa e adulta de toda a comunidade – do discernimento
final dos carismas. Fruto de um dom do Espírito – o protagonista da
missão – que se reconhece e se comunica poderosamente no ato
sacramental da ordenação, o ministro ordenado está a serviço do Espírito,
que deve ser sempre de novo reconhecido e acolhido, na Igreja e no mundo,
e a serviço de Cristo, Servo e Cabeça da Igreja. Os ministérios
"reconhecidos", "confiados" e "instituídos"
– tomados em conjunto – formam os ministérios não-ordenados,
isto é, que não exigem a ordenação.
- Na Igreja latina, por enquanto, os ministérios instituídos são apenas
os ministérios de Leitor e Acólito, criados pelo Papa Paulo VI, no Motu
proprio Ministeria quaedam, de 15 de agosto de 1972. O
"modelo" para a criação de outros ministérios instituídos
foi dado, mas a Igreja tem preferido limitar-se a formas menos
institucionalizadas de ministérios, como são os "reconhecidos"
e os "confiados". Algumas Dioceses têm desenvolvido um trabalho
orgânico no sentido de, a partir das necessidades das comunidades e dos
carismas de seus membros, desenvolver ministérios que são conferidos,
através de um rito litúrgico presidido pelo Bispo, a pessoas escolhidas
pelas próprias comunidades, numa espécie de "instituição"
sob a responsabilidade da Igreja Particular. A instituição oficial de
ministros leigos numa comunidade, seguindo um ritual litúrgico próprio,
previsto para esta circunstância, pode assumir um significado muito
grande para o fortalecimento da dimensão eclesial dos ministérios leigos,
contanto que faça parte de um projeto diocesano e seja a culminância de
um processo de valorização dos leigos nas comunidades.
São diversos os valores eclesiais que podem ser
fortalecidos com este processo:
- o envolvimento da comunidade na indicação de seus
ministros recupera a dinâmica da Igreja Primitiva, de participação da
comunidade nas responsabilidades do ministério apostólico;
- a indicação clara de leigos para assumirem
responsabilidades eclesiais ajuda a superar uma mentalidade longamente
implantada, de centralização do ministério nas mãos das pessoas
ordenadas, como se só elas pudessem exercer ministérios na Igreja;
- a instituição de ministros faz que a comunidade
reconheça que eles são parte de sua vida, favorecendo uma melhor compreensão
de que todos os cristãos participam da missão da Igreja;
- a instituição de ministros possibilita ainda uma
distribuição de tarefas que libera o ministro ordenado para tarefas mais
específicas de seu ministério e fortalece a identificação do povo com a
Igreja, que passa a contar com pessoas que assumiram claramente
responsabilidades pela vida e missão eclesiais;
- a instituição de ministros leigos, a partir de um ato
que conta com a presença do Bispo Diocesano, torna mais visível a unidade
de atuação de todos os ministérios na Diocese, ao mesmo tempo que se abre
caminho para a salutar diversidade e descentralização, que vai ao encontro
das necessidades próprias de cada comunidade.
- Alguns dos ministérios que os leigos e as leigas exercem são chamados
de ministérios de "suplência", porque, embora seu exercício
não dependa da ordenação, as funções neles implicadas são
historicamente consideradas próprias e típicas do ministério ordenado.
Portanto, quando os leigos ou leigas as assumem, estão suprindo a falta
ou impossibilidade de ministros ordenados. A questão de fundo que se
poderia colocar em relação a esta situação é a seguinte: se estas funções,
embora próprias e típicas do ministério ordenado, podem, em
determinadas circunstâncias, ser assumidas por leigos e leigas, por que não
se pensar numa reorganização mais ousada dos ministérios eclesiais,
criando verdadeiros e próprios "ofícios" a serem conferidos a
leigos e leigas estavelmente e com responsabilidade própria e não
simplesmente como "suplência"? Do ponto de vista teológico, se
um leigo ou leiga pode suprir o ministro ordenado em determinadas ações,
significa que está habilitado para tanto, em virtude dos sacramentos de
iniciação. Por outro lado, nas atuais circunstâncias, em muitos
lugares, a suplência não tem o caráter de eventualidade ou de
provisoriedade, mas de situação pastoral normal e habitual, sem previsão
razoável de mudança desse quadro.
- Também a distinção entre "ministérios "ad intra" e
ministérios "ad extra" merece uma reflexão mais
aprofundada. Que, de um lado, existam funções voltadas mais para a
edificação e a manutenção da comunidade eclesial e, de outro, funções
marcadamente destinadas à atuação da Igreja na sociedade, é um dado de
fato. Aliás, salta à vista também que, nas atuais circunstâncias, na
maioria de nossas Igrejas Particulares, temos um número muito maior de
leigos e leigas engajadas em tarefas catequéticas e litúrgicas do que,
por exemplo, nas pastorais sociais ou nas atividades missionárias. A
distinção entre ministérios "ad intra" e ministérios
"ad extra" baseia-se numa visão teológica que separa
rigidamente e inadequadamente "Igreja" e "mundo" e,
consequentemente, "vida" da Igreja e "missão" da
Igreja, "vida interna da Igreja" e "missão da Igreja no
mundo". Na verdade, a expressão "missão da Igreja" ou
"ministério da Igreja" engloba num único dinamismo, embora
complexo e articulado, a vida interna da Igreja e sua atuação no mundo.
Se entendermos que a Igreja é aquela porção da humanidade que professa,
proclama, vive, celebra e serve ao mistério da salvação que Deus opera
no mundo e na história, tudo na Igreja e todos na Igreja estão a
serviço desse mesmo desígnio de salvação e libertação. Não é
preciso "sair" da Igreja para "ir" ao mundo, como não
é preciso "sair" do mundo para "entrar" e
"viver" na Igreja. A palavra será sempre palavra da
Igreja sacramento, serva da obra de salvação de Deus na história e no
mundo. A liturgia - que é "o cume para o qual tende a ação
da Igreja e a fonte de onde emana toda a sua força" - cantará as
maravilhas que Deus opera nos seres humanos com todas as suas relações,
mais ainda, na sua história e em todo o universo. O serviço não
será visto como a presença da Igreja no mundo através de alguns de seus
membros ou de seus organismos, mas a face mais concreta da missão da
Igreja no mundo. E estas três dimensões - palavra, liturgia, serviço -
não são elementos estanques e incomunicáveis, mas intimamente
entretecidos na unidade do mesmo desígnio salvífico. Por isso, não é
adequado pensar a repartição das tarefas e ministérios, como se alguns
devessem dedicar-se exclusivamente à "vida interna" da Igreja e
outros se encarregassem da "presença no mundo", reproduzindo,
numa forma nova, o velho esquema dos "dois gêneros de cristãos".
A compreensão da Igreja como "sacramento de salvação" exige a
superação entre um "ad intra" (em que a Igreja existiria e
funcionaria em si e para si) e um "ad extra" (em que a Igreja ou
parte dela agiria a serviço do mundo). Por isso, não há ministérios na
e para a vida interna da Igreja e ministérios para o exterior da Igreja.
Os ministérios são sempre ministérios na Igreja e para a Igreja, mas
sempre Igreja sacramento de salvação e libertação do homem todo e de
todos os homens na única história da salvação.
- A esta altura, é também importante lembrar que
os ministérios não
se limitam a determinadas áreas da missão da Igreja, como, por exemplo,
o âmbito do culto, da palavra ou da coordenação eclesial. Podem
desenvolver-se - e, de fato, se desenvolvem - verdadeiros ministérios
tanto na função profética, quanto na função sacerdotal, quanto na função
real. Os ministros da sagrada comunhão, por exemplo, não são mais
ministros que os catequistas ou que os agentes da pastoral da criança ou
de outra pastoral social. Por que, por exemplo, as pastorais sociais podem
ser consideradas verdadeiros ministérios? Porque as pastorais sociais,
por exemplo, não são atuações de pessoas ou grupos de pessoas em nome
próprio, mas atuações da Igreja em determinado campo da vida humana. Os
seus agentes são verdadeiros ministros. Por isto se deverá falar de
"ministério e não simplesmente de serviço cristão para todas as
funções importantes exercidas em nome da Igreja, que respondam a uma
necessidade permanente. A diferença entre serviço cristão e ministério
(...) deve-se ao fato que o ministério implica sempre maior ou menor
representatividade da Igreja e compromisso das autoridades eclesiais
correspondentes em relação à pessoa que o exerce". Por outro lado
- e exatamente por isso - não é toda atuação cristã no social e no
político que, "ipso facto", possa ser considerada ministério.
Além de respeitar a autonomia das realidades terrestres e da atuação
dos cristãos nestas realidades, é preciso lembrar aquela distinção que
a "teologia do laicato" fazia entre agir "como" cristão
e agir "enquanto cristão" ou, então, entre agir "cristão"
e agir "eclesial". O ministério é um agir
"eclesial", que representa e empenha publicamente e oficialmente
a Igreja. Os "serviços" cristãos não
devem chamar-se ministérios, porque "não se necessita designação
ou reconhecimento algum para testemunhar a fé no mundo, para estar a
serviço uns dos outros na Igreja, ou para um grande número de tarefas
que contribuem para o anúncio do Evangelho e para a construção do Corpo
de Cristo" . Dizer que o exercício cristão de uma profissão civil
ou de alguma atividade política não é ministério não é desmerecer
nem diminuir seu valor - que é da ordem do testemunho - mas,
simplesmente, respeitar a natureza das coisas e, neste campo, a legítima
autonomia das realidades terrestres e do cristão nelas envolvido. O que
é necessário, na verdade, nesta questão, é superar o mau uso das
palavras, como o que só considera ministério a função que tenha esta
designação ou, vice-versa, aquele que não quer reconhecer caráter
ministerial a funções que têm todas as características exigidas de um
ministério.
- Por último, é importante lembrar que, assumindo ministérios
"reconhecidos" ou "confiados" ou "instituídos",
os cristãos leigos permanecem leigos e, por isso, devem vivê-los
e exercê-los na plena consciência de sua condição laical, que os
coloca não só em relação característica com Cristo e com a Igreja,
mas, de maneira toda particular, em relação com o mundo.
- "Os leigos derivam o dever e o direito do apostolado de sua união
com Cristo-Cabeça. Pois, inseridos pelo batismo no Corpo Místico de
Cristo, pela Confirmação robustecidos na força do Espírito Santo,
recebem do próprio Senhor a delegação ao apostolado" (AA 3). É
importante que os leigos, vivendo sua vida familiar ou profissional
normal, ou engajados em alguma forma de apostolado ou ministério, com ou
sem mandato canônico, estejam plenamente convencidos de que o fundamento
estatutário e sacramental de sua participação na missão da Igreja se
encontra no Batismo, enquanto sacramento de pertença, e na Confirmação,
enquanto sacramento da Missão na força do Espírito de Pentecostes. Na
verdade, "com a efusão batismal e crismal o batizado torna-se
participante na mesma missão de Jesus Cristo, o Messias Salvador"
(CfL 13c)". "É, pois, necessário ... que os pastores, ao
reconhecer e ao conferir aos fiéis leigos os vários ministérios, ofícios
e funções, tenham o máximo cuidado em instruí-los sobre a raiz
batismal destas tarefas"(CfL 23,h)
IDENTIDADE TEOLÓGICA DOS LEIGOS E LEIGAS
- Por isso, em nossa reflexão sobre "Missão da Igreja e ministérios
dos cristãos leigos e leigas", não podemos deixar de aprofundar –
ainda que muito brevemente – o estatuto teológico dos cristãos leigos
e leigas. Valemo-nos, nesta reflexão, mais uma vez, dos ensinamentos do
Concílio Vaticano II, que, ao ser o "Concílio da Igreja", foi,
pela primeira vez na história, também o "Concílio dos leigos e
leigas". O Concílio Vaticano II pensou a estrutura social da
Igreja em termos de hierarquia (realizando a missão do povo cristão
basicamente na Igreja) e laicato (realizando a missão do povo cristão
basicamente no mundo). É, com efeito, herdeiro da situação eclesial
e da teologia que o precederam e prepararam. Tanto uma como outra se esforçaram
por resgatar, na prática e na teoria, a dignidade e a missão dos leigos
e leigas. De forma densa, Lumen Gentium descreve - não faz uma
definição - o leigo no n.º 31, ressaltando sua condição cristã e
eclesial, sua diferença em relação à hierarquia e aos religiosos, e
enfatizando sua "índole secular". Assim se expressa o Concílio:
"Pelo nome de leigos aqui são compreendidos todos os cristãos,
exceto os membros de ordem sacra e do estado religioso aprovado na
Igreja. Estes fiéis pelo batismo foram incorporados a Cristo,
constituídos no povo de Deus e, a seu modo, feitos partícipes do múnus
sacerdotal, profético e régio de Cristo, pelo que exercem sua
parte na missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo. A índole
secular é própria e peculiar aos leigos. (...). Aos leigos compete,
por sua vocação própria, buscar o Reino de Deus, exercendo funções
temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no século, isto é,
em todos e em cada um dos ofícios e trabalhos do mundo. Vivem nas condições
ordinárias da vida familiar e social, pelas quais sua existência é como
que tecida. Lá são chamados por Deus para que, exercendo seu próprio
ofício, guiados pelo espírito evangélico, a modo de fermento, de
dentro, contribuam para a santificação do mundo. E assim manifestam
Cristo aos outros, especialmente pelo testemunho de sua vida
resplandecente em fé, esperança e caridade. A eles, portanto, cabe de
maneira especial iluminar e ordenar de tal modo as coisas temporais, às
quais estão intimamente unidos, que elas continuamente se façam e cresçam
segundo Cristo, para louvor do Criador e Redentor".
- Convém deter-nos - ainda que brevemente - nos vários elementos que
compõem esta "descrição tipológica".
A NOVIDADE CRISTÃ
Os leigos são, antes de tudo, "cristãos". A Nova
Aliança, prometida por Javé – da qual deve nascer um povo novo, santo e
universal pela efusão do Espírito – consumou-se no sangue de Jesus, o
Cristo. Aqueles que nEle crêem, regenerados pela Palavra, pela Água e pelo
Espírito, são transformados em "cristãos". Graças ao Espírito,
eles pertencem a Cristo, o Ungido por excelência, tornam-se filhos de Deus
e irmãos entre si, na Igreja. O leigo é, portanto, antes de tudo, o
"homo christianus": "Reconhece, ó cristão, a tua
dignidade!" . Esta é a condição cristã comum a todos os batizados.
Esta é a novidade cristã, que define sua identidade e os diferencia
dialeticamente do mundo. A consciência da "novidade cristã" era
tão forte que, mais do que ressaltar as diferenças internas, o Novo
Testamento insiste em acentuar esta condição, comum a todos os renascidos.
Internamente, eles se chamam de "discípulos", "crentes"
(ou "fiéis"), "irmãos", "santos" e
"eleitos"; os "de fora" os chamam de "cristãos"
ou "nazoreus". O leigo é, portanto, antes de tudo, a cristã
ou o cristão típico. Esta sua identidade, porém, é a condição cristã
"comum" a todos os batizados.
QUE DISTINGUE OS LEIGOS DOS DEMAIS?
O que distingue os leigos dos demais fiéis é, em primeiro lugar, a
chamada "definição negativa", pela qual o termo leigo, pelo
menos desde Tertuliano, adquiriu o sentido técnico de cristão "não
pertencente ao clero". É por isso que, após estabelecer sua
identidade cristã ("todos os cristãos"), o Concílio
acrescenta: "exceto os membros de ordem sacra e do estado
religioso aprovado na Igreja".
SUAS MÚLTIPLAS RELAÇÕES
- O Concílio, porém, está interessado em descrever positivamente
o leigo. Por isso, na seqüência, vai afirmar – partindo da ênfase
sobre o batismo – a sua "incorporação a Cristo",
a sua "constituição no Povo de Deus", a
sua participação na tríplice função de Cristo e, consequentemente, sua participação na missão comum a todo o povo
cristão, tanto na Igreja como no mundo. Estes elementos, porém, são
comuns a todos os membros da Igreja; por isso, ao afirmá-los, o Concílio
acrescenta – sem ainda explicitá-los – dois elementos de caráter
distintivo: "a seu modo", quanto à participação
na tríplice função, e "pela sua parte", quanto
ao exercício da missão comum. Não deve passar despercebida a afirmação
de que o leigo exerce, pela sua parte, a missão do povo cristão "na
Igreja e no mundo". O Concílio supera, desta maneira, a repartição
"a Igreja aos clérigos" e o "mundo aos leigos".
A "ÍNDOLE SECULAR"
- Tendo deixado claro que os leigos são cristãos e, portanto, que
participam a pleno título da missão da Igreja, era necessário
esclarecer a característica própria deles. O 2º parágrafo de Lumen
Gentium 31 procura descrever a peculiaridade dos leigos, usando
um termo que, na reflexão e na prática sucessivas, terá franca aceitação,
embora sujeito a equívocos: a "índole secular". Os
leigos são chamados a evidenciar a missão da Igreja "no
mundo". Mas, mesmo aqui, o Concílio deve fazer algumas precisões.
E as faz a partir das ‘relações’ dos leigos com os clérigos e com
os religiosos, de um lado, e com a própria realidade do mundo, de outro.
A primeira: convém que os "clérigos" se dediquem com maior
evidência ao ministério. A segunda: os "religiosos",
por vocação e opção, acentuam a "transfiguração-oblação"
do mundo pelo espírito das bem-aventuranças. A terceira: os
leigos têm a "vocação" de "procurar o Reino de Deus
exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus" e, assim,
possam "contribuir, a modo de fermento, por dentro, para a santificação
do mundo".
"MUNDO" É SUA VOCAÇÃO PRIMEIRA
- Convém colher – na concisão do texto conciliar – a densidade de
elementos aí implicados. Em relação aos clérigos e ao religiosos, o leigo é o cristão que vive no mundo. A descrição pode parecer
equívoca, pois também o ministro ordenado e o religioso vivem no mundo.
O que é, porém, diferente é o ‘modo’ de o leigo estar
presente no mundo: "Lá são chamados por Deus para que, exercendo
seu próprio ofício guiados pelo espírito evangélico, a modo de
fermento, contribuam para a santificação do mundo. E assim
manifestam Cristo aos outros, especialmente pelo testemunho de sua vida
resplandecente em fé, esperança e caridade. A eles, portanto, cabe de
maneira especial ordenar de tal modo as coisas temporais, às quais estão
intimamente unidos, que elas continuamente se façam e cresçam segundo
Cristo, para louvor do Criador e Redentor". A condição de vida
do leigo é lida teologicamente como vocação. A sua existência –
pautada pelo Evangelho, na vivência da fé, da esperança e da caridade
– é, por si mesma, antes mesmo de qualquer ação, possuidora de valor
evangélico. É vivendo a sua própria vida "segundo Deus" que o
leigo procura o Reino. Esta é a sua vocação primeira e os compromissos
que ela comporta são vontade de Deus. Nesta linha, o ensinamento da Gaudium
et spes é enfático: "O Concílio exorta os cristãos (...) a
procurarem desempenhar fielmente suas tarefas terrestres, guiados pelo espírito
do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo não termos aqui
cidade permanente, mas buscamos a futura, julgam, por conseguinte, poderem
negligenciar os seus deveres terrestres, sem perceberem que estão mais
obrigados a cumpri-los, por causa da própria fé, de acordo com a vocação
à qual cada um foi chamado. Não erram menos aqueles que, ao contrário,
pensam que podem entregar-se de tal maneira às atividades terrestres,
como se elas fossem absolutamente alheias à vida religiosa, julgando que
esta consiste somente nos atos de culto e no cumprimento de alguns deveres
morais. Este divórcio entre a fé professada e a vida cotidiana de
muitos deve ser enumerado entre os erros mais graves do nosso tempo (...)
Portanto, não se crie oposição artificial entre as atividades
profissionais e sociais de uma parte e, de outra, a vida religiosa. Ao
negligenciar os seus deveres temporais, o cristão negligencia os seus
deveres para com o próximo e o próprio Deus e coloca em perigo a sua
salvação eterna".
SEM EXCLUSIVIDADE
- A diversidade de condição vital do leigo – e, conseqüentemente, de
vocação e função – não significa exclusividade. Por isso, Lumen
gentium 31b tem o cuidado de dizer que "a índole secular é própria
e peculiar aos leigos", não, portanto, exclusiva. Também mais
adiante, quando diz que cabe aos leigos "tratar as coisas temporais e
ordená-las segundo Deus", não diz que isto "é porém específico
dos leigos, por sua própria vocação" (como uma tradução
incorreta faz crer), mas que "por própria vocação, é próprio
dos leigos..." ou "por sua vocação, é próprio
dos leigos...". Nesta mesma linha, Gaudium et spes
confirma: "As profissões e atividades seculares competem
propriamente aos leigos, ainda que não de modo exclusivo".
NA IGREJA E NO MUNDO
- Superado todo separatismo, descortinam-se, assim, diante dos leigos não
só várias daquelas atividades que, durante muito tempo, foram atribuídas
aos ministros ordenados – exceção feita àquelas funções e ações
que dependem necessariamente do sacramento da ordem – mas, sobretudo, o
vasto campo das realidades terrestres. Em relação às
primeiras, além de várias afirmações disseminadas por diversos
documentos, o Concílio é explícito: "Além deste apostolado que
atinge todos os cristãos sem exceção, os leigos podem, de diversos
modos, ser chamados a uma cooperação mais imediata com o
apostolado da hierarquia, à semelhança daqueles homens e mulheres que
ajudavam o apóstolo Paulo no Evangelho, trabalhando muito no Senhor. Além
disso gozam da aptidão de serem designados pela hierarquia para alguns
ofícios eclesiásticos a serem exercidos para um fim espiritual".
Aqui o Concílio fala de ‘cooperação’.
- No vasto campo das realidades terrestres, os leigos agem com
responsabilidade própria, iluminados pela fé e respeitando a própria
estrutura das coisas, sem esperar que os pastores da Igreja tenham – ou
devam ter - uma doutrina ou uma solução concreta para todas as situações:
"Não julguem (os leigos) serem os seus pastores sempre e tão
competentes que possam ter uma solução concreta e imediata para toda
questão que surja, mesmo grave, ou que seja esta a missão deles. Os
leigos, ao contrário, esclarecidos pela sabedoria cristã e prestando
atenção cuidadosa à doutrina do Magistério, assumam suas
responsabilidades". Aqui o C
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oncílio fala de ‘autonomia’,
ainda que esta seja relativa, pois todos – pastores e leigos – estamos
debaixo da Palavra de Deus e daquela lei que o Criador gravou nos próprios
seres e em nossos corações.
2.3. HIERARQUIA E LAICATO
- Embora o Concílio Vaticano tenha lançado as bases para uma compreensão
da estrutura social da Igreja como comunhão, essa estrutura continua
ainda sendo pensada dentro do binômio clássico "hierarquia e
laicato". É sabido, porém, que esse binômio – que condiciona
fortemente o nosso modo de entender e de viver a realidade eclesial e a
missão – não é suficiente. De um lado, distingue muito; de outro
lado, distingue muito pouco! Expliquemo-nos. O binômio distingue muito
a hierarquia e o laicato porque não realça suficientemente a unidade
batismal, crismal e eucarística que liga no mesmo e único Espírito os
leigos e os ministros ordenados. Deixa na sombra a condição cristã e a
missão, que são comuns aos leigos e à hierarquia, e que os distinguem
em relação ao mundo. Ao distinguir tão claramente hierarquia e laicato,
dá-se a impressão que hierarquia e laicato não pertençam à mesma
comunhão eclesial, que é toda ela "sacramento de salvação"
no mundo e para o mundo. De outro lado, o binômio distingue muito
pouco, porque, no interior da comunhão eclesial, destaca apenas estas
duas realidades - a hierarquia e o laicato – deixando na sombra a
imensa variedade de carismas, serviços e ministérios que o único
Espírito suscita para a vida e a missão da Igreja.
COMUNIDADE - CARISMAS E MINISTÉRIOS?
- Por isso, desenvolvendo perspectivas já presentes no Concílio, mas
ainda não explicitadas, vários teólogos - a começar por Congar - têm
proposto pensar a estrutura social da Igreja em termos de "comunidade
– carismas e ministérios". O primeiro termo,
"comunidade" (ou o teologicamente mais denso "comunhão"),
inclui tudo o que há de comum a todos os membros da Igreja; e a dupla
"carismas e ministérios" inclui tudo o que positivamente os
distingue. É esta, aliás, a perspectiva do Novo Testamento, onde
nunca aparece o termo "leigo" ou "leiga", mas
sublinham-se os elementos comuns a todos os cristãos e, ao mesmo tempo,
valorizam-se as diferenças carismáticas, ministeriais e de serviço.
Neste sentido, os termos que designam os membros do Povo de Deus acentuam
a condição comum a todos os renascidos pela água e pelo Espírito:
"santos", "eleitos", "discípulos",
"irmãos".
106. O binômio "comunidade – carismas e ministérios"
deve, porém, ser completado pela perspectiva da missão que a Igreja
é chamada a desempenhar no mundo. A partir de uma eclesiologia de
totalidade, a Igreja toda – portanto, pastores e leigos, consagrados e não
consagrados – está no mundo e é sacramento de salvação no mundo. Cada
um, porém, realiza a missão do povo cristão na Igreja e no mundo a partir
do(s) carisma(s) recebido(s) e, eventualmente, do(s) serviço(s) ou ministério(s)
que exerce. Como entender – na ótica de uma eclesiologia de totalidade
– a "'índole secular", que é "própria e peculiar",
embora não exclusiva, dos leigos e leigas?
- A "índole secular" (ou secularidade ou laicidade,
como alguns preferem) pode ser considerada em quatro sentidos. Há,
em primeiro lugar, uma "laicidade" do próprio mundo. É
a sua consistência própria, a sua autonomia em relação à Igreja, a
sua busca de formas de organizar a convivência humana - com critérios e
por caminhos que a sociedade civil vai elaborando e compondo em consensos
mais ou menos parciais: "as coisas criadas e as mesmas sociedades
gozam de leis e valores próprios, a serem conhecidos, usados e ordenados
gradativamente pelo homem". Há, em segundo lugar, uma "laicidade"
da própria Igreja. Afinal, a Igreja toda - e não só os leigos e
leigas - está no mundo e participa de suas atividades em todos os campos,
embora sejam bastante diversificadas as relações dos membros da Igreja
com as atividades familiares, econômicas, sociais, políticas, culturais
e religiosas que tecem a sociedade humana. Evidentemente, há uma "índole
secular" própria e peculiar dos leigos e leigas, como Lumen
Gentium 31 descreve com propriedade. É neste sentido que, com muito
realismo, o Concílio liga a vocação dos cristãos "especialmente"
com o mundo: "Os leigos, porém, são especialmente chamados para
tornarem a Igreja presente e operosa naqueles lugares e circunstâncias
onde, apenas através deles, ela pode chegar como sal da terra. Assim,
todo leigo, em virtude dos próprios dons que lhe foram conferidos, é, ao
mesmo tempo, testemunha e instrumento vivo da própria missão da
Igreja". A Exortação Evangelii Nuntiandi é mais
pormenorizada ao apresentar a missão do leigo no mundo: "O campo
próprio de sua atividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e
complicado da política, da realidade social e da economia, como também
o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos
"mass media" e, ainda, outras realidades abertas para a
evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças
e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento". E deve
haver - se quisermos ser coerentes com a mensagem cristã e dignos de crédito
na sociedade moderna e pluralista - uma "laicidade na
Igreja", que consiste em viver na Igreja aqueles valores
(chamados de "laicos" no Ocidente, mas que na verdade têm
origens cristãs) que são a referência ideal da convivência na
sociedade civil (liberdade, fraternidade, solidariedade, igualdade) e que
são pregados pela Igreja, mas nem sempre têm plena cidadania na vida e
nas relações intraeclesiais.
- Os dois enfoques acima descritos - o binômio hierarquia-laicato e o binômio
comunidade-carismas e ministérios - fazem-nos perceber a realidade
eclesial a partir de ângulos diferentes, que podem complementar-se,
cuidando-se de evitar compreensões parciais de ambas.
- No uso do termo "leigo", não se deve esquecer que leigo e
leiga são, antes de tudo, cristãos e membros da Igreja, a pleno título,
mesmo não fazendo parte da hierarquia. Será que, sobretudo em nossas
relações com a sociedade civil, não poderíamos evitar o termo
"leigo" - que, no decorrer da história, infelizmente adquiriu
um sentido negativo - e ter a coragem de usar o termo "cristão"
ou "católico", sem o excesso de zelo de afirmar sempre e em
todo lugar a diferença em relação à hierarquia?
- Assumindo o binômio "comunidade - carismas e ministérios", não
se poderia esquecer a laicidade do mundo, a laicidade da e na Igreja e a
índole secular própria e peculiar dos leigos e leigas, nos sentidos
explicados acima. É claro, neste nível, que a grande maioria do laicato
e a grande maioria do clero - sociologicamente falando - se enquadram na
descrição de Lumen Gentium 31.
III - COMUNIDADE EM MISSÃO
Diretrizes para a evangelização
- A participação diversificada na única missão do Povo de Deus -
que tem como fim a expansão do Reino, servindo neste tempo de peregrinação
à construção da sociedade justa e fraterna e à edificação da Igreja - une
a todos os cristãos. Na perspectiva da solidariedade e da
complementaridade, eles se reforçam mutuamente e descobrem sua missão e
seus carismas, que põem a serviço da comunidade e do mundo como frutos da
multiforme graça de Deus recebida no Batismo, enriquecida e fortalecida na
Crisma e alimentada na Eucaristia, em vista da missão testemunhal.
- Nesta terceira parte, apontaremos algumas diretrizes práticas,
que deverão ser aplicadas às situações específicas com criatividade e
enriquecidas em cada Igreja Particular, paróquia, comunidade, movimento
ou pastoral.
- Partimos da concepção de que toda a Igreja é missionária e
ministerial e que a base sobre a qual se fundamentam todos os ministérios
é a comunidade evangelizadora. Sob o impulso do Espírito Santo,
protagonista da missão, a comunidade, enriquecida pela variedade de
carismas que o mesmo Espírito confere a todos os cristãos, forma seus
ministros e lhes confia a missão. Esta missão tem a finalidade de, em
nome do Espírito, anunciar a Boa Nova de Jesus através do serviço e
participação na transformação da sociedade pelo bem dos pobres, do diálogo
com as culturas e outras religiões, do anúncio do Evangelho e da vivência
e testemunho da comunhão eclesial.
1. POR UMA COMUNIDADE PROFÉTICA, MISSIONÁRIA,
ACOLHEDORA, PARTICIPATIVA E MISERICORDIOSA
"Aprouve, no entanto, a Deus santificar e salvar os homens, não
individualmente, excluindo toda a relação entre os mesmos, mas formando
com eles um povo, que o conhecesse na verdade e o servisse em
santidade". "Os missionários suscitem comunidades de fiéis que
exerçam as funções sacerdotal, profética e régia... Dessa forma, a
comunidade cristã se torna sinal da presença de Deus no mundo".
"O múnus de Pastor não se limita ao cuidado singular dos fiéis, mas
estende-se propriamente à formação da genuína comunidade cristã".
Essas declarações do Concílio lembram o que o Novo Testamento afirma com
insistência. O apostolado individual é importante para a evangelização,
mas ele deve estar integrado na comunidade cristã, que, por sua vez,
é missionária e ativa no serviço do Reino de Deus.
- Para que possam ser aquele sinal de unidade e paz que o mundo procura,
as
comunidades precisam cultivar as atitudes da acolhida, da misericórdia,
da profecia e da solidariedade. Numa sociedade em que cresce o número
dos excluídos e descartáveis; onde a concorrência desenfreada e anti-ética
dificulta a fraternidade e a paz; onde a injustiça e a corrupção chegam
a impor-se como normais, as comunidades deverão destacar-se como
referencial de vida e esperança, sobretudo para os mais pobres.
- As comunidades devem ser realmente fraternas,
de tal forma que a
igual dignidade de todos os fiéis seja evidenciada e seja estimulada a
participação ativa de todos. As celebrações litúrgicas, respeitada a
diversidade de funções, coloquem em relevo a comunhão fraterna entre
todos, de tal forma que aquele que se aproximar da comunidade cristã
possa reconhecer nela um sinal da presença de Deus.
- As paróquias, capelas, CEBs, pastorais, grupos cultivem particular
solicitude para receber e introduzir na vida comunitária as pessoas que
chegam de outros lugares ou que se reaproximam da vida eclesial. Sejam realmente
acolhedoras, mais semelhantes a uma família do que a um aparato
burocrático. Afastem formas de autoritarismo e mecanismos de exclusão.
É importante recordar que a acolhida se deve fazer presente em todos os
momentos da vida comunitária. Portanto, ela exige de cada um de nós uma
atitude permanente de abertura ao outro e de conversão.
- Mais cuidado ainda exige o acolhimento daqueles que são
"diferentes" e procedem de outra comunidade cristã, de
outra religião ou de uma situação de vida e de cultura estranhas às
comunidades eclesiais. Nesses casos, lembre-se a atitude das primeiras
comunidades cristãs, que não discriminavam raça ou povo, gênero ou
classe.
- As comunidades acolham, com amor fraterno, os cristãos que não são
membros da Igreja Católica. "Justificados pela fé no batismo,
eles são incorporados a Cristo e, por isso, com razão, honrados com o
nome Cristãos e merecidamente reconhecidos pelos filhos da Igreja Católica
como irmãos no Senhor". Herdeiros das divisões do passado e
igualmente responsáveis pela atual fragmentação do Povo de Deus, todos
os discípulos de Cristo devem superar pela caridade os obstáculos que os
separam, "exprimindo ao mesmo tempo o sinal da comunhão e da unidade
da Igreja em Cristo". Cientes de que a solicitude de instaurar a união
se impõe a toda a Igreja, tanto aos fiéis como aos pastores", os fiéis
católicos solicitamente participem pela oração, pela palavra e pela ação,
do movimento ecumênico.
- Merecem particular atenção aquelas pessoas que estavam
afastadas da Igreja ou até vivem em situação canônica irregular, mas
manifestam o desejo de reaproximação. É preciso seguir o exemplo de
Jesus: acolhimento, compreensão e respeito.
- Muitas vezes, nossas comunidades mal merecem esse nome, porque são
demasiadamente grandes, massificadas, impessoais. Devemos continuar o
nosso esforço de estimular a formação de comunidades menores ou de
grupos, que facilitem um relacionamento direto e pessoal. No ambiente
urbano, será mais difícil estabelecer comunidades e grupos com a mesma
estabilidade e de maneira homogênea como na sociedade tradicional. Porém,
grupos ou comunidades ambientais (trabalhadores de uma empresa,
profissionais da saúde, professores...) podem constituir válida experiência
eclesial e contribuir para a transformação das estruturas sociais. Em
todo caso, é importante multiplicar diversas formas de relacionamento,
aproveitando as múltiplas possibilidades da comunicação de hoje. Pessoas,
grupos e comunidades podem permanecer em comunicação entre si, como
numa "rede" de troca de informações e experiências, que se
lhes permita alimentar da riqueza da vida cristã de outros grupos ou
movimentos, da paróquia, da diocese, da Igreja que atua em nível
regional, nacional e mundial.
- É preciso dar continuidade e novo vigor à nossa orientação de 1981,
que pedia: "fazer com que todos os fiéis, diretamente ou
através de representantes eleitos, participem, quanto possível, não só
da execução, mas também do planejamento e das decisões
relativas à vida eclesial e à ação pastoral; para isso podem
promover-se periodicamente assembléias e sínodos do povo de Deus, devendo-se
manter, em todos os níveis, conselhos pastorais, como
recomenda o Concílio e Puebla o reafirma". Haja o cuidado,
nos Conselhos, de não buscar simplesmente a vontade da maioria, mas,
quando possível, o consenso de todos ou soluções que conciliem direitos
e interesses da maioria e dos grupos minoritários. Diante do consenso do
Conselho, o Pároco assuma sem hesitar a decisão, a não ser que motivos
de consciência lhe imponham um momento de reflexão ou consulta ao Bispo
diocesano, para voltar novamente a dialogar com o Conselho.
- Para que a participação possa ser efetiva, tenham os fiéis
oportunidades
reais tanto de informação sobre a vida eclesial quanto de formação
cristã, sem o que dificilmente poderão participar consciente e
responsavelmente da missão. Com o Projeto "Rumo ao Novo Milênio",
a Conferência Episcopal está incentivando um esforço amplo e
constante de formação de jovens e adultos, que necessitará de maior
apoio e continuidade. Esse esforço abre ao povo cristão as riquezas da
Palavra de Deus e contribui para formar um espírito crítico diante da
cultura de massa, pobre de valores éticos, individualista e consumista.
- Num País profundamente marcado por formas graves de injustiça e de
marginalização social, nossas comunidades precisam aprofundar o conhecimento
e a prática da doutrina social da Igreja e, a exemplo de Jesus e dos
profetas, denunciar com firmeza tudo aquilo que se opõe ao Evangelho e
contraria os princípios éticos de uma sadia convivência humana. Atentas
aos sinais dos tempos, as comunidades tenham os olhos voltados para o
futuro, confiantes que o Senhor nos precede na história e na missão,
sustentando-nos na caminhada. As comunidades cristãs, em parceria com
outros construtores da sociedade pluralista, esforcem-se para ser
portadoras da memória e profecia do Espírito.
- O pluralismo cultural e religioso da sociedade moderna se manifesta,
antes de tudo, nas grandes cidades. O recente Sínodo para a América
reconhece a presença de "dificuldades tão grandes que as estruturas
pastorais normais se tornam inadequadas". Incentiva, por isso, a
continuar "na procura dos meios com os quais a paróquia e as suas
estruturas pastorais se tornem mais eficazes nas zonas urbanas" e
sugere, como meio de renovação paroquial, a perspectiva da "paróquia
comunidade de comunidades e de movimentos". Julga "oportuna a
formação de comunidades e grupos eclesiais de tal dimensão que permitam
estabelecer verdadeiras relações humanas". Nessa perspectiva, já
existem experiências de comunidades e grupos que se especializaram
no acolhimento de um público determinado – desde a pastoral dos condomínios
ou dos arranha-céus até os grupos de rua – ou prestam serviços específicos
como centro de formação teológica e pastoral, cursos de formação política,
experiências de catecumenato para jovens e adultos, centros de
espiritualidade. Por outro lado, parte da população urbana não se liga
mais à paróquia em que reside, mas escolhe a comunidade eclesial
que quer freqüentar ou se integra em movimentos eclesiais onde se sente
bem acolhida. Muitos fatores da vida urbana ultrapassam a paróquia e se
situam no nível da cidade inteira ou de regiões metropolitanas,
abrangendo vários municípios. Tudo isso exige no plano pastoral ações
de nível regional ou diocesano, como, por exemplo, no uso dos Meios de
comunicação social, na pastoral da saúde, da pastoral universitária ou
na presença cultural. O desafio da pastoral urbana não é
constituído, porém, apenas pela organização de novas formas de
comunidade eclesial ou de serviços pastorais. Ainda mais forte é o
desafio das modalidades da experiência religiosa, da espiritualidade e
da linguagem que as novas gerações urbanas esperam de uma comunidade
cristã criativa, fiel ao Evangelho e, ao mesmo tempo, atenta às mudanças
da cultura e das formas de vida.
2. SERVIÇO E PARTICIPAÇÃO NA TRANSFORMAÇÃO DA SOCIEDADE
PELO BEM DOS POBRES
Aos cristãos leigos compete uma atuação insubstituível na construção
da sociedade justa e fraterna, a partir de sua condição e ambiente próprios.
Nessa atuação são prioritárias: a luta contra a miséria e tudo o que
degrada a vida humana; a defesa intransigente da ética pública. O Concílio
exorta os leigos a que se empenhem generosamente no desempenho do seu papel:
"O apostolado no meio social, a saber, o esforço de dar, pelo espírito
cristão, nova forma à mentalidade e aos costumes, às leis e às
estruturas da comunidade em que vivem, a tal ponto é dever dos leigos, que
por outros nunca poderiam ser devidamente realizados" .
- Após o Concílio, a reflexão desenvolvida pelos Sínodos e Episcopados
destacou a conexão entre evangelização e animação cristã das
realidades terrestres, ou, em outras palavras, entre evangelização
e libertação, promoção humana, desenvolvimento. Apareceu mais
claro que a "animação cristã das realidades terrestres"
exigia profunda transformação da sociedade e implicava uma luta difícil
contra estruturas injustas, contra um verdadeiro "pecado
social". O Papa João Paulo II, na Exortação após o Sínodo de
1987, descrevendo a missão dos leigos, articula estreitamente o anúncio
do Evangelho e o serviço da pessoa e da sociedade.
- A Exortação Christifideles Laici propõe aos leigos e leigas
uma visão muito ampla de como eles podem participar da nova evangelização,
ao "viver o Evangelho servindo a pessoa e a sociedade" e
praticando "a caridade, alma e sustentáculo da solidariedade".
O serviço da pessoa e da sociedade inclui principalmente: promover a
dignidade da pessoa; venerar o inviolável direito à vida; invocar o nome
do Senhor com liberdade; promover a família como primeiro espaço para o
empenho social. A prática da caridade e da solidariedade exige de todos a
participação política e o reconhecimento de que a vida econômico-social
deve estar a serviço da pessoa humana. Exige ainda a evangelização da
cultura e das culturas. Esse programa abre à missão dos leigos um horizonte
amplíssimo. Dentro desse horizonte, que desejamos manter presente e
vivo diante de nossos olhos, situamos algumas orientações que querem
responder aos questionamentos na atual conjuntura.
- Na ação solidária para a promoção humana, a justiça e a paz e a
conservação da criação, "a cooperação de todos os cristãos
exprime, de modo vivo, os laços que já os unem entre si e faz
resplandecer mais plenamente a face de Cristo Servo". "Tal
cooperação baseada na fé comum - comenta o Papa João Paulo II - não só
aparece densa de comunhão fraterna, mas é uma epifania do próprio
Cristo". Deve ser estimulado todo o esforço realizado neste sentido,
em todas as situações em que nos encontramos junto com nossos irmãos
cristãos que não são membros da Igreja Católica e também com
seguidores de outras religiões. "O desejo dos cristãos de
realizarem juntos tudo o que a sua fé lhes permite é limitado neste
momento pelas divergências que ainda existem. A cooperação pode ajudá-los
a ultrapassar tudo o que é obstáculo à plena comunhão".
- Vemos com alegria e esperança a atuação de inúmeros leigos
que, com consciência crítica, testemunham o Evangelho no ambiente
familiar, no trabalho, na política e na participação firme e eficaz nos
mais diversos setores da sociedade civil. Persistem, porém, parcelas
significativas do Povo de Deus marcadas, ainda, pela dicotomia entre fé e
vida e que se deixam facilmente influenciar pelo ambiente e cultura
dominantes.
- A experiência no mundo da política tem-se revelado difícil aos
leigos cristãos. Devido ao preconceito, muito comum, que considera a política
como algo sujo, as comunidades cristãs nem sempre confiam naqueles que,
mesmo saindo de seu meio, assumem esta tarefa na sociedade civil. Muitos se
queixam de que ao assumirem uma opção político-partidária, se sentem
abandonados pela comunidade cristã de origem. No entanto, há os que
assumem esta tarefa conscientes de que são portadores de uma radicalidade
evangélica que não pode ser instrumentalizada, submetida, anulada.
Cabe às comunidades cultivarem atitudes concretas de apoio, acompanhamento
e formação permanente aos que despertam para essa vocação. Convém
destacar aqui algumas iniciativas já bem sucedidas, tais como Comissão de
Justiça e Paz, Centros de Defesa de Direitos Humanos, Escolas de Fé e Política,
Comissões de acompanhamento das sessões das Câmaras Municipais, participação
em Conselhos paritários, e outras.
- A transformação da sociedade não será possível sem as transformações
das estruturas de poder hoje existentes. Por isso, além da saudável
e necessária participação de cristãos na política partidária, é
necessário incrementar os grupos de reflexão e de acompanhamento das
atividades políticas, exercendo cada vez mais a aproximação entre o
compromisso de fé e o exercício da justiça por meio dos organismos de
representação popular. Os grupos de Fé e Política devem ser
incentivados e preparados para, entre outras atividades, acompanhar
criticamente os trabalhos do legislativo local, fiscalizar a execução do
orçamento público, elaborar projetos de lei de iniciativa popular,
sensibilizar a opinião pública, divulgar relatórios sobre as atividades
de vereadores e deputados, bem como dos responsáveis pelo Executivo.
- A exigência da solidariedade e do serviço aos mais pobres tem levado a
renovar as práticas de caridade e assistência social. Novas situações
de pobreza e de sofrimento solicitam novas atitudes por parte dos cristãos,
empenhados numa ação social, que procura ir além da mera assistência,
para criar iniciativas de economia solidária, de auto-ajuda, de promoção
e transformação social. Formas novas de atuação têm suscitado
extraordinário número de agentes voluntários como, por exemplo,
pastoral da criança, pastoral do menor, pastoral da saúde, pastoral
carcerária, recuperação de dependentes químicos e marginalizados. Freqüentemente
também são promovidas campanhas de solidariedade, que mobilizam jovens e
adultos. Além disso, continua a generosa dedicação das muitas pessoas,
homens e mulheres, que cuidam das obras sociais. Toda comunidade se
empenhe para que não haja nela nenhum necessitado.
- O agravamento da miséria em nossa sociedade gera a necessidade de
maior
agilização das iniciativas comunitárias com o objetivo de levar
solidariedade e esperança aos irmãos menos favorecidos. Deve-se
buscar maior coesão e organização entre os muitos esforços que se
fazem partindo das comunidades cristãs, para melhor fruto. Deve ser
procurado intercâmbio entre as comunidades, comunicando experiências que
estão dando bons resultados e que possam ser implantadas em outros
locais. Promova-se a divulgação de tais experiências pela mídia,
buscando sensibilizar a população. Interessante seria um projeto do tipo
"Paróquias Irmãs", onde uma paróquia em melhores condições
colaboraria com outra em situação de maior dificuldade.
- A missão do leigo na sociedade apresenta-se hoje à consciência cristã
como uma forma de evangelização, em que aspectos diversos podem ser
acentuados, conforme o apelo das circunstâncias e a vocação pessoal de
cada um: quer na transformação das realidades terrestres, pela ação
social e política, quer no anúncio da mensagem evangélica pela palavra,
pelo testemunho de vida e pelo diálogo, sempre em atitude de serviço
inspirada pelo Cristo, que veio para servir.
3. DIÁLOGO COM AS CULTURAS E OUTRAS RELIGIÕES
A certeza de que o Espírito Santo está presente nas mais diversas
Igrejas, religiões e culturas leva a comunidade eclesial a buscar no diálogo
com elas o conhecimento mútuo, o aprofundamento da verdade e a parceria na
construção de uma nova sociedade, que supere todas as discriminações
e dominações. Ressalta-se aqui a grande responsabilidade do cristão
leigo, por estar em permanente relação com pessoas de diferentes religiões
e culturas. Constata-se, porém, que no campo do diálogo com a cultura
moderna e com as outras religiões, estamos apenas começando e temos longo
caminho a percorrer. O leigo cristão deve ter iniciativa própria e postura
pessoal de abertura, diálogo, cooperação e valorização do diferente.
- Por outro lado, evidencia-se para todos a existência de uma sociedade
profundamente marcada pelo pluralismo
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cultural e religioso. Esse
fenômeno pode ser localizado, com freqüência, até mesmo no seio das
famílias católicas, onde os costumes e a religião dos pais já não são
transmitidos tranqüilamente para os filhos. Desse contexto emerge o
imperativo do diálogo como condição para o anúncio autêntico e eficaz
do Evangelho.
- Cresce, por isso, a consciência da necessidade de acompanhamento sério
dos cristãos, no sentido de ajudá-los a desenvolver aquelas disposições
que tornam o diálogo autêntico e proveitoso: "equilíbrio, que
une abertura e realismo; convicção, que permite expressar com
sinceridade e integridade a própria fé; busca do aprofundamento da
verdade, inclusive da compreensão mais completa da própria fé; disposição
para acolher com gratidão os dons de Deus e os frutos do próprio diálogo".
Não deve faltar também justa disposição para reconhecer os próprios
erros.
- No diálogo com os homens e mulheres de boa vontade, o leigo católico
esforçar-se-á por perceber, compreender ou interpretar as interrogações
e os anseios dos que buscam a Verdade e o encontro com Deus. Aqui também
os caminhos ou as mediações são importantes, num mundo em que às vezes
a pessoa do Cristo vivo e a mensagem cristã estão obscurecidas pelos
pecados dos próprios cristãos, por suas violências e crimes cometidos
ao longo da história.
- Ganham corpo também junto aos leigos algumas
experiências concretas
de ecumenismo em cursos, seminários e sobretudo na atuação em áreas
de necessidades fundamentais para o resgate da cidadania. Crescente adesão
tem recebido a "Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos".
- O Papa João Paulo II é grande promotor da aproximação dos cristãos
e dos povos, no afã de favorecer, em nível mundial, a superação
definitiva do espírito bélico e a vivência efetiva da paz. Na Tertio
Millennio Adveniente, o Santo Padre propõe como meta do Grande
Jubileu a união dos cristãos ou, pelo menos, maior aproximação
entre eles. Esta é também a intenção da Igreja no Brasil, ao propor
para o ano dois mil a Campanha da Fraternidade ecumênica, com o tema
"Dignidade Humana e Paz" e com o lema "Um novo Milênio sem
Exclusões".
- Nessas e noutras iniciativas procuraremos agir, não sozinhos, mas
sempre em diálogo e comunhão com os irmãos de outras Igrejas. Já nos
valemos da experiência do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) para ampliar a consciência e o movimento ecumênico em nosso
País.
- Tudo isso torna cada vez mais urgente a boa formação de cristãos
leigos aptos para o diálogo com a cultura moderna e para o testemunho
da fé numa sociedade que se apresenta sempre mais pluralista e, em muitos
casos, indiferente ao Evangelho.
4. ANÚNCIO DO EVANGELHO
O maior desafio missionário, no Brasil hoje é a
nova evangelização.
A grande maioria dos brasileiros recebeu o batismo e um anúncio, pelo menos
elementar, do Evangelho. Apesar disso, percebe-se que não está vivendo a fé
com tal convicção que influencie seu modo de vida. Com acerto, as
Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora afirmam que "os católicos não
praticantes constituem o maior desafio missionário ... ao menos do ponto de
vista quantitativo". Essa situação origina-se principalmente do fato
de as famílias e o ambiente sócio-cultural já não conseguirem comunicar
a fé às novas gerações, que portanto precisam ser novamente
evangelizadas, a partir agora do contexto moderno e urbano, diferente do
contexto rural e tradicional, que antigamente conservava a religiosidade.
- Tempos atrás, as missões se impuseram, em todo o País, como necessárias
para avivar a fé do povo, que vivia isolado, e para renovar as convicções
que davam sentido à sua vida e orientavam a sua caminhada. Hoje porém, a
situação mudou. As pessoas não vivem isoladas, mas no meio da
multidão, na cidade, ou em contato com o mundo inteiro, através da
televisão. O que escutam e vêem, o mais das vezes, é incentivo a pensar
em si mesmas, a desejar um pouco de tudo - principalmente os bens
materiais, o bem-estar, "a felicidade de ter" isto ou aquilo - e
a esquecer-se dos outros, talvez até de Deus. Nunca houve tanta informação
como hoje e tão pouca comunicação entre as pessoas. Essa situação
provoca a busca de novos métodos na evangelização que ajudem o povo a
resgatar o sentido mais profundo de sua vida e a razão de sua fé.
- A consciência da necessidade de uma nova evangelização mais ardorosa
e mais inculturada, sustentada pelo Projeto Rumo ao Novo Milênio,
tem suscitado significativo movimento missionário, que vai desde a
realização de missões em áreas pouco atendidas pastoralmente até à
difusão de experiências comunitárias, à pregação itinerante, à
fundação de círculos bíblicos ou de "grupos de rua", às
missões populares de avivamento da fé no meio da massa dos fiéis.
- Por todo o País multiplicam-se as experiências das missões populares.
Através delas, tem-se buscado revalorizar e purificar a religiosidade
popular e, ao mesmo tempo, articular melhor fé e vida. O Projeto Rumo
ao Novo Milênio, em comunhão com organismos missionários,
desenvolvem novas práticas no âmbito da formação de evangelizadores
e incentiva as Igrejas Particulares a exercitarem a criatividade na
implantação das mais diversas formas de missão, tanto na zona rural
quanto nas áreas urbanas.
- A exigência do anúncio da Boa Nova tem encontrado, nas comunidades,
movimentos e pastorais, significativa e crescente receptividade. Papel
significativo têm desempenhado os santuários, que reforçam a fé
e a esperança dos romeiros, ajudando-os a articular fé e vida e
remetendo-os ao engajamento nas comunidades de origem. Destacam-se ainda
os eventos promovidos pelas CEBs e pelos diversos movimentos eclesiais,
que avivam o fervor de muitos fiéis.
- O ministério da visitação está produzindo muitos frutos nas
comunidades. Os agentes de pastoral visitam as famílias,
especialmente em ocasiões como nascimentos, doenças, mortes, e encontram
as pessoas onde elas vivem, trabalham, mesmo aquelas que não procuram
espontaneamente a comunidade eclesial.
- Esse ministério é completado pela prática do aconselhamento.
Pessoas com habilidade e preparo procuram escutar, compreender, apoiar,
orientar e consolar as pessoas que se encontram na dúvida ou em
dificuldades afetivas, espirituais e materiais. Algumas dessas práticas
foram realizadas pioneiramente por movimentos que hoje apontam para todos
este caminho, por certo essencial para tornar a nossa Igreja acolhedora e
misericordiosa.
- Têm também um papel missionário marcante as iniciativas comunitárias
e os movimentos que possibilitam autêntica experiência religiosa,
de encontro com o Cristo Vivo, às pessoas que estão afastadas das
comunidades eclesiais. Toda comunidade deve hoje cuidar, de modo muito
particular, de que suas celebrações e reuniões se constituam em lugar
da experiência de Deus, como Paulo pedia aos Coríntios.
- Junto com o testemunho dado pelas comunidades, é importante frisar o
papel do apostolado individual e do testemunho de cada cristão no
coração do mundo, em sua inserção nas atividades "temporais"
ou "seculares", como "o mundo vasto e complicado da política,
da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências
e das artes, da vida internacional, dos meios de comunicação e, ainda,
outras realidades abertas para a evangelização, como o amor, a família,
a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o
sofrimento. Quanto mais leigos houver impregnados do Evangelho, responsáveis
em relação a tais realidades, [...] tanto mais essas realidades, sem
nada perder ou sacrificar do próprio coeficiente humano, mas patenteando
uma dimensão transcendente para o além, não raro desconhecida, se virão
a encontrar a serviço da edificação do reino de Deus e, por
conseguinte, da salvação em Jesus Cristo". "A síntese vital,
que os fiéis leigos souberem fazer entre o Evangelho e os deveres
cotidianos da vida, será o testemunho evangelizador mais maravilhoso e
convincente". "Com esta forma de apostolado (individual), a
irradiação do Evangelho pode tornar-se mais capilar, chegando a
tantos lugares e ambientes quanto os que estão ligados à vida cotidiana
e concreta dos leigos. Trata-se, além disso, de uma irradiação constante,
estando ligada à contínua coerência de vida pessoal com a fé; e também
uma irradiação particularmente incisiva, porque, na total
partilha das condições de vida, do trabalho, das dificuldades e esperanças
dos irmãos, os fiéis leigos podem atingir o coração dos seus vizinhos,
amigos ou colegas, abrindo ao horizonte total, ao sentido pleno da existência:
a comunhão com Deus e entre os homens". Assim, os leigos serão
"sal da terra" e "fermento na massa".
- Constata-se também que há um número sempre crescente de leigos e
leigas assumindo missões em áreas longínquas e até mesmo além das
fronteiras do nosso País. No espírito do Jubileu, que nos convida a
cancelar as dívidas, as comunidades eclesiais no Brasil são chamadas a
repartir melhor seus recursos humanos e materiais com as comunidades mais
carentes, em particular, partilhando o esforço missionário com a Igreja
da Amazônia. Nesta partilha entre irmãos, tanto se beneficia quem recebe
quanto aquele que dá.
- A divisão entre os cristãos "contradiz abertamente a vontade de
Cristo e se constitui em escândalo para o mundo, como também prejudica a
santíssima causa da pregação do Evangelho a toda criatura". Os
desafios missionários do mundo contemporâneo exigem dos cristãos o
testemunho de uma fé amadurecida, que os torna capazes de se
reencontrar para além dos conflitos e tensões. O testemunho ecumênico
pode ser dado na própria atividade missionária. Ultimamente as experiências
das missões populares e do ministério da visitação têm mostrado a urgência
de desse testemunho. "O missionários católicos deverão respeitar
com todo cuidado a fé viva das outras Igrejas e Comunidades Eclesiais que
pregam o Evangelho e deverão alegrar-se de que a graça de Deus
frutifique entre seus membros". Os católicos podem agregar-se também
a organizações e programas que dêem um apoio comum às atividades
missionárias de todas as Igrejas participantes.
- Permanecem, porém, desafios missionários mais amplos e árduos.
No momento atual, a grande procura de religiosidade não pode esconder o
fato que ela, em grande parte, não ultrapassa a esfera da vida privada.
Os meios econômico, político, científico, profissional são, ao contrário,
fortemente secularizados. Eles prescindem da dimensão religiosa da vida,
pois a consideram irrelevante para suas finalidades. Os cristãos que
atuam nesses meios vivem o drama do conflito de consciência entre as exigências
do sistema econômico, político e profissional, e as convicções éticas
de inspiração cristã. Por outro lado, o sistema econômico-político
exerce poderosa influência, através dos meios de comunicação de massa,
sobre a cultura e a mentalidade do povo. Eles constituem um "moderno
areópago", onde é urgente a presença de apóstolos competentes e
corajosos.
5. VIVÊNCIA E TESTEMUNHO DA COMUNHÃO ECLESIAL
A comunidade eclesial é missionária, pela sua própria existência. Ela
deve dar testemunho de comunhão fraterna e daquela unidade com o
Pai, pelo Filho e no Espírito, que é necessária "para que o mundo
creia". Para isso, ela se alimenta permanentemente da Palavra de
Deus e da Liturgia. O Concílio Vaticano II reconheceu o valor
central dessas duas fontes de vida cristã e a elas dedicou as constituições
Dei Verbum e Sacrosanctum Concilium. Contribuiu assim para a
profunda renovação da liturgia e a ampla divulgação e leitura da Bíblia
entre os católicos. Aspecto importante dessa renovação foi a revalorização
dos carismas e a nova repartição das tarefas e ministérios destinados a
tornar mais acessíveis à comunidade as riquezas da Palavra e da Liturgia.
- O Concílio Vaticano II ajudou a Igreja latina a redescobrir a presença
do Espírito Santo, quer valorizando os carismas, quer
ressaltando-lhe a atuação na origem e na missão da Igreja. O sacramento
da Confirmação é como que o "pentecostes" do cristão
batizado que o consagra permanentemente para a missão no seio do povo de
Deus. "Pelo sacramento da Confirmação são vinculados mais
perfeitamente à Igreja, enriquecidos de especial força do Espirito Santo
e assim mais estreitamente obrigados à fé que, como verdadeiras
testemunhas de Cristo, devem difundir e defender tanto por palavras como
por obras". Para um laicato consciente é de capital importância a
convicção de ter sido marcado, com um caráter indelével, pelo selo do
Espírito, enviado por Cristo de junto do Pai, e derramado sobre a sua
Igreja, para permanecer com ela até o fim dos séculos. Sem essa mística,
torna-se difícil para os leigos dar à ação pastoral "um novo
impulso, capaz de suscitar, numa Igreja ainda mais arraigada na força e
na potência imorredouras de Pentecostes, tempos novos de evangelização".
- Desde o Concílio Vaticano II aconteceu na Igreja amplo florescimento de
ministérios, assumidos pelos leigos em virtude dos sacramentos do
Batismo e da Crisma e da variedade de carismas. Esse florescimento de
novos ministérios foi aprovado e encorajado pelo papa Paulo VI na Evangelii
Nuntiandi (1975) e pelo papa João Paulo II, particularmente na Christifideles
Laici. Desde então, a Igreja tem regulado o exercício de alguns dos
novos ministérios, como veremos a seguir.
- O Código de Direito Canônico prevê, no cânon 517, § 2, em casos
excepcionais, a nomeação de leigos para participar do cuidado
pastoral de uma paróquia, que porém continua confiada ao governo de
um presbítero como pároco. Leigos e leigas integrem uma equipe pastoral
que ajude o pároco no desempenho de suas responsabilidades. Entre nós,
leigos e leigas assumem, em grande escala, o serviço de animação das
pequenas comunidades ou comunidades eclesiais de base, em que se articulam
muitas das paróquias, especialmente nas regiões rurais e nas periferias
urbanas.
- Na tradição cristã, o ministério da Palavra é o primeiro
ministério, pois é chamado a suscitar a fé e a educá-la. Em
nosso País, são particularmente numerosas as celebrações dominicais
da Palavra, presididas por leigos e leigas, que se esforçam por
desempenhar esta função na fidelidade ao Evangelho e atendendo às
orientações da Igreja e do bispo diocesano.
- Muitos outros leigos e leigas, especialmente os catequistas, cuidam da
educação da fé de crianças, jovens e adultos, desempenhando o ministério
da catequese, com o apoio da paróquia e da diocese. Hoje, a
catequese supre muitas vezes a falta de educação da fé por parte da família.
A catequese já não conta com o apoio de um ambiente cristão e se vê
desafiada pela cultura atual. Por isso, é tanto mais necessária uma boa
formação dos catequistas. Em muitos lugares desenvolve-se a catequese de
adultos, para os quais é necessário oferecer um itinerário de fé
adequado às circunstâncias atuais. Não esqueçam, porém, os leigos
que, acima de tudo, podem e devem exercer a vocação profética recebida
no batismo, pelo exemplo e a palavra, em sua vida quotidiana e onde o Espírito
os chamar.
- Os leigos participem dos conselhos pastorais e econômicos, em nível
diocesano, paroquial e comunitário. Reiteramos o convite a dioceses e paróquias,
que ainda não tenham instituído esses conselhos, para que os promovam
como eficiente instrumento de participação do povo de Deus. Cuide-se,
outrossim, que eles sejam realmente representativos da comunidade.
- Continue-se a experiência já bastante difundida e proveitosa em nosso
País dos ministros extraordinários da Sagrada Comunhão. No exercício
deste ministério, prestem preciosa colaboração na assistência
espiritual aos enfermos e idosos. Esse serviço laical torna-se ainda
mais necessário e urgente, se considerarmos que uma parcela significativa
do povo morre sem o conforto do sacramento da Unção dos Enfermos.
Cuide-se também de oferecer a esses ministros formação e acompanhamento
adequados.
- A prática, em muitos lugares, de se confiar a fiéis leigos o
ministério
do Batismo tem-se revelado pastoralmente valiosa. Ela poderia ser
estendida a outras comunidades, com autorização do bispo diocesano.
Incentivamos as comunidades a cuidar com particular zelo da pastoral do
batismo, sacramento que todos os pais católicos procuram para seus filhos
e que é, portanto, ocasião preciosa de contato com todas as famílias,
mesmo aquelas que não freqüentam assiduamente a Eucaristia ou outros
sacramentos.
- Em algumas regiões do País, verifica-se a atuação de fiéis como
testemunhas qualificadas do Sacramento do Matrimônio, isto é, Assistentes
Leigos do Matrimônio. Esse ministério pode ser pastoralmente
mais proveitoso quando inserido num processo de pastoral familiar, que
prepare e acompanhe os casais. E é tanto mais necessário quanto mais difícil
for a situação pastoral.
- As exéquias constituem-se num momento pastoral privilegiado,
porque todos estão, nesta hora, mais abertos à mensagem da fé. Sua
celebração pode ser confiada a ministros não ordenados que, em nome da
Igreja, nessa ocasião dão testemunho de esperança, de solidariedade e
de conforto.
- Os ministérios até aqui citados estão regulados por normas da Igreja
universal e possuem muitas vezes longa tradição. Mas as mudanças
recentes nas situações sociais e culturais de nosso País, além de
situações particulares ou regionais, têm favorecido a criação e ainda
poderão suscitar outros tipos de serviços pastorais, que
respondam às necessidades das pessoas e comunidades.
- A grande mobilidade de pessoas e famílias e, por outro lado, a solidão
e o isolamento de que sofrem muitas pessoas no meio urbano têm
incentivado recentemente as comunidades a criar e valorizar o ministério
da acolhida, que visa a receber pessoas novas na comunidade ou a
oferecer oportunidades de escuta e de aconselhamento para as pessoas que
se sentem sozinhas ou desorientadas.
- A crescente busca de espiritualidade e de oportunidades de oração
comunitária suscita a procura e a formação de animadores de grupos
de oração, de retiros, de círculos bíblicos e de grupos de reflexão,
de celebrações de louvor ou penitenciais (não sacramentais), de reza do
terço, de animação da música e do canto religioso. Além dos ministérios
litúrgicos já citados acima, é notável a difusão das equipes que
cuidam da preparação da missa dominical e da celebração dos diversos
sacramentos, favorecendo uma participação viva do povo e celebrações
de cunho mais pastoral e catequético.
- Constata-se, com alegria, que cresce na Igreja do Brasil o número de
teólogas e teólogos leigos que assumem a missão da assessoria teológica
junto às comunidades, da reflexão sistemática da fé e do ensino nas
mais diversas escolas teológicas do País. Multiplicam-se os cursos de
teologia para leigos, distintos na duração e no nível, mas todos
procurando dar uma formação mais aperfeiçoada e sistemática da fé. É
necessário, portanto, investir mais recursos na formação dos leigos,
seja através de bolsas de estudo, seja remunerando convenientemente as
atividades de ensino e pesquisa.
- As difíceis condições econômicas do povo têm gerado uma preocupação
de administrar com eficiência os escassos recursos das comunidades, para
assegurar, da melhor forma possível, a construção de Igrejas, capelas e
centros comunitários, a sustentação dos ministros, a dignidade do culto
e assistência aos pobres. Neste serviço de administração,
destacam-se muitos leigos e leigas que zelam pelo bem da comunidade.
Outros profissionais prestam, gratuitamente, serviços de assessoria
administrativa e jurídica ou no campo da comunicação social, auxiliando
pastorais e organismos eclesiais, paroquiais ou diocesanos. Todos esses
serviços merecem apoio para o seu desenvolvimento.
- Outra prática que se vem tornando comum em nossas comunidades é a de
substituir as espórtulas pela pastoral do Dízimo, que organiza a
sustentação financeira dos ministros e das atividades pastorais,
desvencilhando-a de uma vinculação demasiadamente estreita com os
sacramentos. Recomenda-se fundamentar biblicamente a prática do dízimo e
destinar sua arrecadação prioritariamente às pessoas e atividades
pastorais, prestando contas à comunidade das entradas e das despesas.
- É importante que jovens e adultos continuem a assumir a iniciativa de
reunir grupos de jovens e de lhes proporcionar oportunidades de
formação, crescimento, opção vocacional e engajamento. Incentive-se,
ainda, a criação de grupos de adolescência e infância missionárias.
Esta tarefa exige paciência e perseverança, porque os grupos se renovam
e mudam muito rapidamente. Outros devem dedicar-se a tarefas mais
especializadas no campo da educação ou do ensino religioso.
- Finalmente, leigos e leigas assumem funções de coordenação
pastoral, a pedido das comunidades ou dos respectivos organismos
pastorais. Os conselhos ou coordenações comunitárias, paroquiais e
diocesanas são espaço para o exercício desse ministério. Cabe-lhes
zelar para que os diversos serviços trabalhem em harmonia e não falte à
comunidade ou organização nada daquilo de que precisa. Funções de
coordenação em nível paroquial, de setor e de diocese, podem exigir
dedicação maior, até, às vezes, tempo integral. A criação de
coordenadores pastorais, em diversos níveis, tem sido uma condição
imprescindível de êxito do planejamento que caracteriza a ação
pastoral no Brasil desde os anos sessenta.
6. FORMAÇÃO, ESPIRITUALIDADE E ORGANIZAÇÃO
A eficaz atuação dos leigos na evangelização exige profunda e séria
preparação, com a finalidade de favorecer o amadurecimento e o exercício
da liberdade e dos carismas. O leigo necessita, igualmente, de vida interior
e espírito de responsabilidade. Isso supõe formação espiritual
adequada, tanto mais que o ambiente cultural da sociedade atual freqüentemente
é orientado em sentido contrário aos valores cristãos. É portanto necessário
criar condições para que os leigos católicos encontrem mais facilmente os
caminhos da descoberta e do aprofundamento de uma espiritualidade cristã, baseada na oração pessoal e comunitária, na leitura da Bíblia e na
vida sacramental, capaz de sustentá-los em sua atuação no mundo - na
realidade da família, da educação, do trabalho, da ciência, da cultura,
da política, dos compromissos sociais e civis - para testemunhar o
Evangelho e transformar a sociedade.
ESPIRITUALIDADE DO CRISTÃO
- A espiritualidade de leigos e leigas é, antes de tudo,
o caminhar
nas estradas da vida, com Cristo, no vigor do Espírito Santo, ao
encontro do Pai, construindo seu Reino. Os discípulos e discípulas de
Jesus hoje são como os discípulos de Emaús: pessoas a caminho,
desalentadas, mas que encontraram um desconhecido que as acompanha e faz
arder-lhes o coração, enquanto lhes fala das Escrituras. Quando
solicitam que permaneça com eles, finalmente o reconhecem no gesto de
partir o pão. Depois deste reconhecimento, voltam para anunciar aos
outros: "Aquele que morreu está vivo!".
- Hoje, como naquele tempo, as pessoas que se sentem chamadas,
"vocacionadas" ao seguimento de Jesus, desinstalam-se, entram na
caminhada, para fazer a experiência de sua presença e permanecer unidas
a Ele, à sua palavra, ao seu amor e, então, partir para anunciá-lo ao
mundo. Por isso, a espiritualidade do seguimento é fundamental
para a vivência cristã. O Espírito ensina-nos o verdadeiro seguimento
de Jesus e suscita hoje uma espiritualidade mais integrada, onde todas as
dimensões humanas são contempladas: a corporeidade, a afetividade, a emoção,
a racionalidade, a criatividade e a sociabilidade.
- Os discípulos de Emaús caminharam junto com Jesus, experimentaram sua
presença, acolheram o sentido da cruz e regressaram à comunidade,
animados e encorajados. Esse encontro com Jesus é experiência do Mistério
que nos circunda e envolve, que aquece os corações, que seduz as
pessoas, proporcionando um sentido novo às nossas vidas. A paixão por
Jesus nos leva a viver a compaixão, a solidariedade e a fazer da partilha
fraterna nosso estilo de vida.
- A espiritualidade não é "uma parte da vida, mas
a vida inteira
guiada pelo Espírito" de Jesus. "Entre os elementos de
espiritualidade que todo cristão deve assumir como próprios, destaca-se
a oração. A oração o levará, aos poucos, a ver a realidade com um
olhar contemplativo, que lhe permitirá reconhecer a Deus em cada instante
e em todas as coisas; de contemplá-lo em cada pessoa; de procurar cumprir
sua vontade nos acontecimentos".
- A espiritualidade não afasta da vida cotidiana. Especialmente
leigos e leigas devem buscar a santidade dentro de suas próprias condições
de vida. É o que ensina o Concílio Vaticano II. Após ter afirmado com
vigor a vocação de todos os fiéis à santidade, a Constituição Lumen
Gentium propõe alguns itinerários espirituais não apenas a ministros
e consagrados, mas também aos esposos e pais, aos trabalhadores, aos
pobres, aos sofredores, aos perseguidos pela justiça, concluindo:
"Todos os fiéis santificar-se-ão dia-a-dia, sempre mais, nas diversas
condições da sua vida, nas suas ocupações e circunstâncias, e
precisamente através de todas essas coisas, desde que as recebam com fé
das mãos do Pai celeste, e cooperem com a vontade divina, manifestando a
todos, no próprio serviço temporal, a caridade com que Deus amou o
mundo".
- A convivênci
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a cotidiana em família é o espaço primeiro
para viver esta espiritualidade, procurando confrontar a própria vida com
a vida e as opções de Jesus de Nazaré, que "passou fazendo o
bem", numa atitude de total abertura ao Pai e aos irmãos.
Certamente, a experiência da família embebida desta espiritualidade será
diferente. A vivência de relações igualitárias, promotoras de respeito
à dignidade e às diferenças, possibilitará um real diálogo e
participação de todos os membros, criando desta forma possibilidades
para uma inserção criativa e crítica na sociedade.
- O Papa Paulo VI denuncia a gravidade da ruptura entre fé e vida, entre
evangelho e cultura. João Paulo II convida os leigos e leigas a estabelecerem
a unidade de vida sustentada pela espiritualidade. "Não pode
haver na sua existência duas vidas paralelas: por um lado, a vida chamada
‘espiritual’, com seus valores e exigências; e, por outro, a chamada
vida ‘secular’, ou seja, a vida da família, do trabalho, das relações
sociais, do empenho político e da cultura. [...] Toda atividade, toda
situação, todo compromisso - como, por exemplo, a competência e a
solidariedade no trabalho, o amor e a dedicação na família e na educação
dos filhos, o serviço social e político, a proposta da verdade na esfera
da cultura - são ocasiões providenciais de um contínuo exercício da fé,
da esperança e da caridade". Leigos e leigas fazem do fogão, do
torno, da cátedra, da enxada, do bisturi... verdadeiro altar. Imersos no
mundo do trabalho, encontram inspiração no testemunho de Jesus de Nazaré,
o filho do carpinteiro e em Maria servindo a prima Isabel.
- Maria, "a primeira entre os humildes e os pobres do
Senhor", a primeira discípula de Jesus, nos orienta no
seguimento de seu Filho, integrando a docilidade ao Espírito e o serviço
generoso às irmãs e irmãos. Os acontecimentos eram, por ela, considerados
à luz da própria experiência, da Palavra de Deus, da atenção à vida e
à história. Exemplo disso é o Magnificat onde louva e bendiz a Deus pelas
maravilhas que Ele realizou na sua vida, na vida do seu Filho e na vida do
seu povo. Discípulos e discípulas hoje reconhecerão que Maria é modelo
de reflexão sobre a vida à luz da fé. Mulher corajosa, que disse sim a
Deus e não às injustiças, ao proclamar que Deus é vingador dos humildes
e dos oprimidos e derruba do trono os poderosos. Mulher forte, "que
conheceu de perto a pobreza, o sofrimento, a fuga e o exílio - situações
estas, que não podem escapar à atenção de quem quiser secundar, com espírito
evangélico, as energias libertadoras do homem e da sociedade".
- A espiritualidade do seguimento de Jesus, vivida por suas
testemunhas
– mártires, místicos e simples fiéis - impressiona e inspira a
vida e a prática de muitos cristãos e cristãs, que buscam ser presença
solidária com a dor dos mais sofridos e procuram estar atentos aos sinais
dos tempos, que desafiam a uma presença qualitativamente distinta na
sociedade.
- Nessa perspectiva, valorizem-se as experiências já adquiridas,
promova-se o intercâmbio entre pessoas e grupos que estão em busca de
uma nova espiritualidade, facilite-se o acesso às fontes da grande
tradição espiritual cristã, criem-se ou reorganizem-se centros de
estudo e de vivência espiritual.
FORMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO
- A formação de que o leigo católico precisa para atuar conforme sua
vocação, desenvolvendo a riqueza dos dons e talentos recebidos, não é
apenas uma formação espiritual. É formação integral, que ajuda
a desenvolver a dimensão humano-afetiva, a capacidade de comunicação e
relacionamento com os outros, a capacidade de compreender, discernir e
avaliar, a perseverança no compromisso e a fidelidade aos valores.
- As "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora" de 1999-2002
traçam as seguintes orientações para a formação dos leigos:
a) seja programada e sistemática, não apenas
ocasional;
b) ligue o aspecto antropológico e o teológico, não
sendo apenas uma reprodução empobrecida da teologia dos seminários;
c) seja integrada e tenha como ponto de partida os
problemas e perguntas dos leigos, oferecendo-lhes respostas para uma
presença cristã no mundo;
d) seja orientada predominantemente para a atuação
nas transformações sociais, onde o testemunho dos leigos é
especialmente qualificado;
e) desenvolva especialmente a capacidade de comunicação
e diálogo, aprimorando o relacionamento humano;
f) seja diversificada e, nos seus métodos, tempos e
conteúdos, seja adaptada à diversidade de situações e tarefas dos
cristãos leigos. Especial atenção merece a formação dos cristãos que
atuam no campo da vida pública e política.
- Na formação e nas atividades permanentes dos leigos merece destaque a
dimensão ética. Recordamos como atual a indicação de Puebla,
que solicita a participação dos leigos "construtores da sociedade
pluralista" na elaboração de uma ética social à altura das
questões contemporâneas: "A comunidade cristã conduzida pelo
bispo estabelecerá a ponte de contato e diálogo com os construtores da
sociedade temporal, a fim de iluminá-los com a visão cristã, estimulá-los
com gestos significativos e acompanhá-los com atuações eficazes".
"Neste contato e diálogo deve circular, numa atitude de escuta
sincera e acolhedora, a problemática trazida por eles do seu próprio
ambiente. Assim poderemos descobrir os critérios, normas e caminhos por
onde aprofundar e atualizar a Doutrina Social da Igreja, no sentido da
elaboração duma ética social capaz de formular as respostas cristãs
aos grandes problemas da cultura contemporânea".
- Da parte da hierarquia e particularmente dos presbíteros, espera-se
efetiva disposição de acompanhar os leigos e leigas que atuam nos
diferentes campos de evangelização. Muitas vezes os leigos reclamam
apoio espiritual e orientação, que lhes faltam. Os Bispos, presbíteros
e diáconos sintam-se convocados pela Igreja a acolher a participação
dos leigos/as em toda a vida de comunidade, respeitando sua missão própria,
incentivando sua formação integral e apoiando seu crescimento. Além
disso, cabe de modo especial aos Bispos a escolha de assessores eclesiásticos
e diretores espirituais para os movimentos e organizações laicais, que
sejam realmente idôneos e bem formados, para manterem os fiéis na sã
doutrina, alimentando sua espiritualidade, aconselhando, estimulando,
dialogando e promovendo a unidade eclesial. Por outro lado, como lembramos
citando o Concílio, os leigos "não pensem que seus pastores estão
sempre de tal modo preparados que tenham uma solução pronta para
qualquer questão". Em todo caso, leigos e pastores procurem sempre o
diálogo sincero e a complementação de suas vocações e ações a serviço
da evangelização.
- "O protagonismo do cristão leigo requer profundas
mudanças no
estilo do governo e no exercício da autoridade por parte da
hierarquia, para permitir e encorajar comunhão, a participação e a
co-responsabilidade dos leigos na tomada de decisões pastorais,
valorizando o voto dos conselhos pastorais e a presença ativa dos fiéis
em Sínodos e Concílios particulares, conforme está previsto por
documentos oficiais da Igreja". A Christifideles laici
encoraja e afirma que "a participação dos fiéis leigos nesses
conselhos (pastorais diocesanos) poderia aumentar o recurso à consulta, e
o princípio de colaboração - que em determinados casos também é de
decisão - e encontrará uma aplicação mais vasta e mais incisiva".
- É desejável que em sua missão os cristãos leigos, superando
eventuais divisões e preconceitos, busquem valorizar suas diversas
formas de organização, em especial os Conselhos de Leigos em todos
os níveis. Eles sejam lugar de encontro, serviço, troca de experiências
e articulação das iniciativas pastorais, organismos e movimentos, na
busca constante de diálogo, comunhão e unidade na diversidade de dons e
carismas.
- Desde 1976, por iniciativa da CNBB, a organização dos leigos é
promovida pelo Conselho Nacional de leigos e leigas católicos do
Brasil (CNL), que atualmente articula 12 Conselhos Regionais,
80 Conselhos Diocesanos e 30 Movimentos e Pastorais organizados no plano
nacional. O CNL se propõe principalmente:
- articular e integrar as organizações e os leigos e leigas católicos
entre si, e representá-los junto aos organismos eclesiais e da sociedade
civil;
- incentivar, ainda mais, a organização dos leigos e leigas católicos
nos diferentes níveis da Igreja no Brasil e, assim, estimular a sua atuação;
- despertar nos leigos católicos a consciência crítica, à luz da evangélica
opção pelos pobres, dando ênfase, em seu trabalho, à dignificação da
pessoa humana e da família;
- incentivar a participação dos leigos e leigas católicos nos processos
de planejamento, decisão, execução e avaliação da Ação
Evangelizadora da Igreja no Brasil, fortalecendo a consciência da
Igreja-Povo de Deus;
- criar e apoiar estruturas de formação e capacitação, que ajudem os
leigos e leigas católicos a descobrirem sua identidade e missão com
vista à construção de uma sociedade justa e fraterna;
- ser presença nos espaços sociais, políticos e culturais do País;
- ser presença na caminhada ecumênica, incentivando a ligação e comunhão
entre leigos e leigas católicos e de outras Igrejas cristãs, bem como
estimular o diálogo inter-religioso com as demais tradições.
- Finalmente, dioceses e paróquias favoreçam a
organização dos
leigos não somente dos que atuam em tarefas intra-eclesiais, mas também
dos que se dedicam à transformação da sociedade. Criem espaços onde os
leigos, com a necessária autonomia, possam realizar o intercâmbio de
reflexão e de experiências e planejar ações comuns.
CONCLUSÃO
Temos a firme convicção que este documento, ao valorizar a missão e os
ministérios dos cristãos leigos e leigas e ao conclamar toda a Igreja a
acolher os dons do Espírito a serviço de sua vida e missão, muito
contribuirá para a obra que Cristo nos confia: confessar, anunciar, servir
e celebrar seu Nome, caminho de vida e esperança para todos.
- Nele, procuramos contemplar a Igreja dos nossos melhores sonhos: Igreja
fiel à Trindade, Igreja servidora do Evangelho, Igreja companheira de
caminhada da humanidade, Igreja missionária, dialógica e ministerial.
- É com este espírito e com este programa que queremos ingressar no
terceiro milênio da história cristã e fazer memória dos quinhentos
anos de nossa primeira evangelização.
- Que o Espírito Santo infunda a sua força no coração de todos aqueles
que abraçaram a missão de evangelizar e multiplique neles os seus dons.
E que Maria Santíssima, modelo de fé, esperança e amor, mantenha viva
em nós a disponibilidade ao Espírito e nos ajude a discernir os sinais
da presença do Deus que "está realmente no meio de nós".
SIGLAS UTILIZADAS
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AA
|
Decreto Apostolicam actuositatem do Concílio Vaticano II
|
|
AG
|
Decreto Ad gentes do Concílio Vaticano II
|
|
CA
|
Encíclica Centesimus annus do Papa João Paulo II
|
|
CD
|
Decreto Christus Dominus do Concílio Vaticano II
|
|
CDC
|
Código de Direito Canônico
|
|
CERIS
|
Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais
|
|
CfL
|
Exortação pós-sinodal Christifideles Laici do Papa João
Paulo II
|
|
DGAE
|
Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil -
CNBB
|
|
DH
|
Declaração Dignitatis humanae do Concílio Vaticano II
|
|
DP
|
Documento de Puebla - 3ª Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano
|
|
EA
|
Exortação pós-sinodal Ecclesia in America do Papa João
Paulo II
|
|
EN
|
Exortação pós-sinodal Evangelii nuntiandi do Papa Paulo
VI
|
|
EV
|
Encíclica Evangelium vitae do Papa João Paulo II
|
|
GS
|
Constituição Pastoral Gaudium et spes do Concílio
Vaticano II
|
|
LG
|
Constituição Dogmática Lumen gentium do Concílio
Vaticano II
|
|
PO
|
Decreto Presbyterorum ordinis do Concílio Vaticano II
|
|
PRNM
|
Projeto Rumo ao Novo Milênio - CNBB
|
|
RMi
|
Encíclica Redemptoris missio do Papa João Paulo II
|
|
SC
|
Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano
II
|
|
SD
|
Documento de Santo Domingo - 4ª Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano
|
|
TMA
|
Carta apostólica Tertio millennio adveniente do Papa João
Paulo II
|
|
UR
|
Decreto Unitatis redintegratio do Concílio Vaticano II
|
|
UUS
|
Encíclica Ut unum sint do Papa João Paulo II
|
ÍNDICE
Apresentação
Introdução
I. DESAFIOS E SINAIS DOS TEMPOS
- Desafios econômicos, sociais e políticos
- Desafios culturais e religiosos
- Força e fraquezas dos cristãos
II. A MISSÃO DO POVO DE DEUS - FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS
1. A missão
- A Missão, obra de Deus
- A Missão, serviço do Reino
- Missão e diálogo
- Missão é evangelização
- A Nova evangelização
- A evangelização nas Diretrizes da Igreja no Brasil
- Anúncio do Evangelho e sinais de solidariedade
- A competência dos leigos
2. O Povo de Deus
2.1. Igreja da Trindade Santa
Mistério de Comunhão
2.2. Povo de Deus
a. Povo livre e fraterno
b. Povo que abre caminho para o serviço
c. Mais importante é o que nos une: a condição cristã
- Participação na função profética
- Participação na função sacerdotal
- Participação na função real
d. Uma só missão assumida por todos
e. Unidade na diversidade
f. Carisma, serviços e ministérios vários
-
Dom de Deus e busca humana
-
Carisma e ministério: distinguindo e unindo
-
Que se entende por ministério?
-
Tipologia dos ministérios
g. O estatuto teológico dos leigos e leigas
2.3. Hierarquia e laicato
... ou "comunidade-carismas e ministérios"?
III. COMUNIDADE EM MISSÃO - DIRETRIZES PARA A EVANGELIZAÇÃO
- Por uma comunidade profética, missionária, acolhedora, participativa e
misericordiosa
- Serviço e participação na transformação da sociedade pelo
bem dos pobres
- Diálogo com as culturas e outras religiões
- Anúncio do evangelho
- Vivência e testemunho da comunhão eclesial
- Formação, espiritualidade e organização
- Espiritualidade do cristão
- Formação e organização
- Para continuar o diálogo
Conclusão
SIGLAS UTILIZADAS
37ª Assembléia Geral da CNBB
Itaici-SP, 22 de Abril de 1999