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Santíssima
Trindade
Em comunhão com a Santíssima
Trindade
Com o fim do Tempo Pascal, na
solenidade de Pentecostes, a Igreja entoa um grande e solene louvor à Santíssima
Trindade, celebrando numa síntese a plenitude do Mistério do Deus-Amor.
Proclama que, desde a Criação do universo até os fins dos tempos, a história
é dirigida pelo Deus Uno e Trino, comunhão perfeita do Pai com o Filho e o Espírito
Santo.
Antes de querer estabelecer uma explicação sistemática do Mistério Trinitário,
a solenidade da Santíssima Trindade quer ser a expressão da experiência de um
Deus que se mostra como Pai, Filho e Espírito Santo, e que, na comunhão
perfeita de três Pessoas distintas, constrói a esperança de uma sociedade que
também anseia pela comunhão perfeita entre homens e mulheres.
Jesus
revela-nos a Trindade
A expressão de um Deus Trindade já está
presente na experiência histórica de Jesus, que diversas vezes falou a
respeito de sua união com o Pai, pela ação do Espírito Santo. Somente em
Jesus, Verbo Encarnado, é que podemos falar de uma explicitação trinitária
de Deus, pois foi nele que o Mistério da Trindade foi revelado de modo pleno à
humanidade. O Deus Trino, que na tradição do Antigo Testamento sempre apareceu
de maneira velada, recebe em Jesus Cristo sua mais completa tradução: desde
sempre Deus é Trindade e somente Nela podemos compreender a plenitude da
bondade de Deus.
A
Trindade na vida da Igreja
As comunidades cristãs celebram, já na suas
origens, o Deus Uno e Trino, através das manifestações litúrgicas e das práticas
sacramentais, sobretudo no batismo (Mt 28,16-20; 1 Cor 12,4-6; 2 Cor 13,13; 2
Tes 2,13-14). Somente com o passar do tempo e diante das necessidades apologéticas,
foi elaborada uma profissão de fé sistematicamente refletida. A teologia da
Trindade nasceu da necessidade de colocar em linguagem lógica a experiência
inefável da fé cotidiana. Mas mesmo depois de tanto esforço intelectual,
certamente válido e necessário, a teologia da Trindade permanece distante para
a maioria dos cristãos.
Como
falar da Trindade
A definição de Trindade, usando categorias
filosóficas de origem grega, onde se postula um Deus uno em Essência e
Natureza, mas trino em Pessoas, que são distintas e igualmente dignas, diz
menos a um fiel do que certas analogias mais simples que, correndo o risco de
modalismo, se justificam pela proximidade afetiva com que chegam ao coração
das pessoas. Assim, a imagem de três velas que juntas formam uma só chama, é
mais compreensível do que a definição da relação pericorética entre as três
pessoas da Trindade.
Pericórese:
expressão grega que literalmente significa uma Pessoa conter as outras duas
(em sentido estático) ou então cada uma das Pessoas interpenetrar as outras
reciprocamente
(sentido ativo). O adjetivo pericorético quer designar o caráter de comunhão
que vigora
entre as divinas Pessoas da Trindade.
Justamente por isso é que
falamos da Trindade a partir da experiência do Amor que por Ela nos é
transmitida. Assim nos aproximamos do Pai, Amante Eterno, que se debruça sobre
o Filho, o Eterno Amado, pelo elo amoroso do Espírito Santo, o Amor Eterno
(Santo Agostinho). Somente com esta disposição do coração podemos ousar
penetrar na complexidade da Trindade de maneira simples e encontrar o Pai que
cria, o Filho que redime e o Espírito que santifica. Três unidos num só ideal
de amor: ser comunhão plena e extravasar esta plenitude a todas as criaturas.
O
Pai
Jesus nos revela o Pai – Abba – dentro de
sua própria vida e ação. O Pai de Jesus é compassivo e misericordioso,
pronto para o perdão e acolhida. O Pai de Jesus toma sempre as iniciativas
amorosas (1Jo 4,10-16); sua fidelidade é infinita (Is 40,8); busca, a todo
custo, recuperar aqueles que são seus (Mt 15,24; Lc 15, 4-7; Lc 19,10). Não é
nunca um Deus hermético, fechado em si mesmo, distante. Ao contrário, sua
alegria é poder participar da vida humana, criada por Ele em vista da plena
felicidade. Ao mesmo tempo, o Pai de Jesus mantém sua alteridade como Deus. A síntese
plástica do Pai de Jesus é certamente o pai misericordioso da parábola (Lc
15,1-32). É Ele a nos dizer continuamente: “Homem, considera que eu fui o
primeiro a amar-te. Não estava ainda no mundo, nem mesmo o mundo era e eu já
te amava. Amo-te desde que eu sou Deus” (Santo Afonso).
O
Filho
Ao revelar o Pai, Jesus revela-se como o
Verbo Encarnado (Jo 1,14), o Filho Amado do Pai (Mt 3, 17; 17, 5). Ele e o Pai são
Um, ou seja, entre Pai e Filho não há contradição de vontades ou atitudes.
Entretanto a unidade entre ambos não é uma identificação que elimina distintções,
mas é antes uma comunhão que exalta a alteridade pessoal de cada um deles.
Toda a ação de Jesus busca a dignidade humana e reflete o desejo último de
Deus Pai, a plenitude da vida (Jo 10,10).
O
Espírito
Porém, o diálogo entre Pai e Filho, caso não
se abrisse a outros, resultaria numa contemplação narcisista ad infinitum.
Surge então a realidade libertadora do Espírito Santo, o qual rompe com a possível
infecundidade do diálogo entre Pai e Filho e possibilita uma frutuosa relação
de comunhão na Trindade e desta com todo o Universo. O amor entre as Pessoas da
Trindade é tão perfeito e tão amplo, que explode e se esparrama pelo Cosmos,
levando às criaturas o ideal de comunhão perfeita na unidade (Jo 17, 21-22).
A
Trindade e nós
Finalmente é preciso falar das conseqüências
de se crer num Deus Trindade. O Deus cristão é o Deus Comunhão de Amor. Crer
nesta realidade significa professar nossa esperança na plenitude da História,
aceitação e realização do pleno ideal de comunhão entre os seres humanos.
Significa aceitar as diferenças entre as pessoas humanas, em todos os aspectos,
mas acreditar num sonho comum de felicidade plena. Significa professar que no
Deus Trino está a chave para a superação dos egoísmos humanos, geradores da
violência e exclusão, e vislumbrar uma sociedade, onde a comunhão dos
diferentes, resulta numa harmonia geradora de Vida. Talvez esta seja a Boa Nova
que não temos ainda anunciado.
Fr.Evaldo César
de Souza C.Ss.R.
ecesouza@yahoo.com.br
Para
aprofundar:
Boff, Leonardo. A Trindade, a sociedade e a libertação. Petrópolis, Vozes.
Forte, Bruno. Introdução à fé. SP, Paulus.
Santo Agostinho. A Trindade. SP, Paulus.