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AQUELA  QUE  INDICA  O  CAMINHO

Dentre os vários títulos de Maria,  o nome que, segundo a tradição, ela mesma escolheu foi "Mãe do Perpétuo Socorro". Este nome alcança singular celebridade entre as imagens da Mãe de Deus. Sua história é conhecida a partir do final do século XV, quando sua imagem (um ícone pintado provavelmente  por um artista da escola de Siena) foi levada de Creta para Roma e colocada na igreja de São Mateus e ali venerada por três séculos. Destruída a igreja de São Mateus, a célebre imagem permaneceu escondida até que, pela providência de Deus, foi descoberta e devolvida ao culto popular,  a 26 de abril de 1866, por ordem do Papa Pio IX, aos cuidados dos Redentoristas. Desde então, tem brilhado com tal quantidade de prodígios que seu culto se difundiu amplamente por todo o mundo. Atualmente  o ícone missionário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, se encontra na Igreja de Santo Afonso, em Roma.

O ícone é uma pintura feita sobre uma prancha de madeira que, no decorrer da história, foi bastante maltratado pela ação do tempo e pela ação humana, fazendo com que escurecesse devido aos vários retoques na pintura. Neste quadro é possível perceber, após uma observação minuciosa, que o dourado do manto da Madona é diferente do dourado do manto do Menino Jesus, o que confirma que ele foi colocado posteriormente, assim como os adornos e a coroa.

Em 1996 foi concluído o restauro do quadro, no qual se pode vislumbrar toda a beleza da mensagem mostrada através de  seus traços e cores. Nele é possível perceber uma profundidade  cristocêntrica.

Analisando todo o conjunto da pintura,  é possível fazer uma leitura teológica do ícone. Ele nos mostra que o centro não é Nossa Senhora e sim Jesus. Para se chegar a essa conclusão basta traçar duas linhas imaginárias, uma ao longo do braço da Madona que forma um ângulo que aponta para  o Menino. Outra linha imaginária pode ser traçada, seguindo os olhos da Madona. No centro do ângulo se vê o Menino Jesus. O mesmo indica os dois dedos da Madona, isto é, apontam para a cabeça do Menino Jesus. Isto mostra que o centro é Jesus Cristo, portanto é um ícone cristocêntrico. Maria é, assim, "aquela que indica o caminho", ou como é mais conhecida: "a via de Cristo".

Pode-se ler, ou perceber no ícone, que o menino não é propriamente um menino, mas um pré-adolescente, que tem entre 13 e 15 anos e,  pela tradição oriental, quando um menino alcançava a idade de 12 anos, ele era considerado adulto. Portanto pela leitura oriental, nos braços da Madona, está um Jesus adulto e não um menino. Assim, Maria que gerou Jesus Cristo na carne, deu à luz a um Cristo homem, isto é, a humanidade do Cristo (divino) provém de Maria.

Nota-se também, o olhar significante de Maria, isto é, o seu olhar está direcionado a quem olha o quadro, e ao mesmo tempo a sua cabeça (levemente inclinada), indica seu Filho Jesus. Entretanto o Menino não olha quem está olhando o quadro, nem olha para a mãe, nem tampouco está olhando para os anjos. Ele está olhando fora do quadro. Assim se pode concluir que Maria nos revela com a encarnação de Jesus Cristo o mistério da Trindade. Ela, que concebeu um filho (na carne) por obra do Espírito Santo (3ª pessoa), chama a atenção para seu Filho (2ª pessoa) que se encarna, e que é o centro. Ele por sua vez, mostra que se deve olhar para além do quadro, indicando com esse olhar como se vai ao Pai, ou seja, Ele revela  o Pai (1ª pessoa).

Deve-se observar a sandália do Menino que está desatada. A interpretação antiga que conta que Jesus ao ver os anjos com os símbolos da paixão, teria se assustado se agarrando às mãos de Maria, agitadamente, a ponto de arrebentar a sandália, não é correta. A sandália é do tipo romana e, portanto presa ao tornozelo, sendo impossível se arrebentar ao se chocar com o outro pé. A interpretação mais aceita e portanto mais correta é outra, ou seja, conforme a tradição oriental, mostrar a planta do pé é dizer que se é  homem. Assim, esta cena indica que Jesus mostra a planta do seu pé, para dizer que ele é verdadeiramente homem (além de divino).

Outro ponto importante a se observar, se refere às cores das vestes e seus significados. No quadro a Madona se veste com túnica vermelha e manto (véu) azul. E o Menino se veste de túnica verde com faixa vermelha e manto ocre. Na simbologia oriental, verde e vermelho significam divindade. O azul e o ocre significam  humanidade. Nota-se que tanto a Madona quanto o Menino estão revestidos com os mesmos símbolos. Entretanto, observa-se que o forro do manto (azul) de Maria é verde, faz lembrar a cor das vestes do menino. O artista reforça o divino  no manto. Já o manto do Menino não tem forro de cor diferente. Assim se pode ler: Maria ao conceber Jesus dentro de si (no seu ventre) foi divinizada. Maria não é divina, mas Jesus, que é de natureza divina,  divinizou toda a interioridade de Maria.

Neste contexto pode-se dizer que Maria é a mãe da Igreja, porque a Igreja no momento que possui Jesus ela é divinizada. Assim como todo cristão ao possuir Jesus Cristo, depois do batismo e da Eucaristia, de certa forma é divinizado. Maria é modelo de Igreja, é Mãe da Igreja.

O último ponto a ser considerado se refere aos dois arcanjos (Miguel e Gabriel) portando os símbolos da paixão, quer lembrar o fato de que a salvação, a idéia redentora, estava operada, foi conquistada através do sofrimento da carne de Jesus Cristo.

Por fim, encontra-se neste ícone a identificação das quatro figuras sacras através das abreviações gregas: MR (na parte superior à esquerda) e qU (na parte superior à direita) ambos significando Virgem Mãe de Deus; 'IC - CC (à direita da cabeça do Menino Jesus) que significa Jesus Cristo; OAM (acima do anjo, à esquerda)que significa Arcanjo Miguel e  OAG (acima do anjo à direita) que significa Arcanjo Gabriel.

Por tudo isto, este ícone é considerado verdadeiramente um ícone da Redenção.  É um ícone cristocêntrico, no qual a figura de Maria, como já foi mencionado, representa, dentro e fora do quadro, "aquela que indica o caminho": Jesus Cristo, Verdade e Vida.

Texto extraído da palestra proferida pelo Pe. Antônio Marrazzo, Postulador Geral da Congregação do Santíssimo Redentor, por ocasião da abertura do Processo de Beatificação e Canonização do Pe. Pelágio Sauter.

Fr. Eduardo Luiz de Rezende, C.Ss.R.

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