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VIVER A QUARESMA
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Meus irmãos sacerdotes, diáconos e
seminaristas, |
40% ficam para o Fundo Nacional da Solidariedade – administrado pela Caritas.
30% ficam para a Arquidiocese.
25% para a Paróquia ou Comunidade e 5% para a Região Pastoral.
E
já que estamos falando em contribuição, lembremo-nos do grave dever de
contribuir com os 10% de todas as entradas das paróquias e comunidades para a Cúria.
Nenhuma razão pode existir para se eximir desta obrigação. Um
ou outro alega que está construindo. Mas quase
todas ou bem todas as comunidades estão lutando para construir, uma igreja, um centro comunitário, uma creche, etc. Todas
tem alguma necessidade especial.
O
que poderá acontecer, no futuro próximo,
é que uma vez constituído Conselho
Econômico, este Conselho faça um esforço sério para promover iniciativas de
inter-ajuda entre as comunidades do centro e da periferia.
De qualquer
forma, todas as comunidades são chamadas a fazer daqueles 10% que cabem à Cúria
uma obrigação. Assim como inculcamos em nossos fiéis o dever do dízimo, também
a Arquidiocese precisa deste dízimo para sobreviver e se organizar
administrativamente e pastoralmente. Esta partilha, além de ser um dever de
justiça, é extremamente educativa, levando as pessoas a entenderem que a
Igreja é maior do que sua comunidade.
Mas, se me
permitem, gostaria agora de estar tocando em alguns pontos que considero muito
importantes:
VIVER A QUARESMA
E
para isso ter um objetivo bem claro. O objetivo não pode ser outro a não ser
celebrar de forma autêntica a ressurreição do Senhor. Tal objetivo tem conseqüências.
A primeira é
mudar a nossa vida, de modo a assemelhar-se mais a Jesus. Se isso não
acontecer, a celebração da ressurreição será desprovida de sua essência.
A segunda é
preparar bem e participar da celebração do Tríduo santo da Páscoa,
especialmente da Vigília Pascal. Se tal não acontecer,
a Quaresma será um caminho que não nos leva a lugar algum. Ambas as
conseqüências (conversão e celebração) são fundamentais para todo o cristão.
Sem elas a Quaresma perde a sua principal razão de ser. É
bom considerar que para vivermos o Natal, seja lá como for, ainda há alguma
ajuda que vem de fora. Mas para a nossa vivência quaresmal, quase não há essa
ajuda.
O carnaval
tende a prolongar-se, as propostas da mídia são de bem outra natureza, a
semana santa é absorvida pela indústria do turismo. Estas propostas de fora
atraem muitos cristãos, às vezes até os mais chegados, que se desviam, assim,
da riqueza espiritual deste tempo favorável.
Considerada
a importância e a centralidade da celebração da Páscoa,
torna-se necessário fazer um grande investimento espiritual e litúrgico
na Quaresma. A peregrinação interior a que somos convidados, há de levar-nos
a evitar tudo quanto nos disperse e nos desvie de contemplar o mistério e de
ouvir a voz de Deus.
As nossas
igrejas deverão, por isso, ser um convite a essa atitude: não estarão
adornadas com flores, o uso dos instrumentos musicais deverá ser mais sóbrio.
Talvez um
crucifixo ou uma bíblia possam
chamar a nossa atenção para o essencial: escutar a Palavra e seguir Jesus
tomando a cruz de cada dia. O canto, é claro, não deixa de desempenhar um
importante papel neste tempo evidenciando a Palavra e restituindo-lhe a sua
forma expressiva e impressiva.
A Quaresma
tem um repertório musical próprio que lhe dá identidade. Os cantos da CF
deverão ser bem cantados em toda
parte. Ao
salmo responsorial cantado deverá ser dado um destaque todo especial (com ou
sem refrão).
Iniciar a
Quaresma, por exemplo, com o canto das ladainhas dos santos, acompanhando a
procissão de toda a assembléia para o lugar da celebração, ajudará a
perceber que a Quaresma nos põe em movimento comunitário para a casa do Pai.
A riqueza da
Palavra de Deus exige leitores capazes e bem preparados e a expressividade da ação
litúrgica requer ministros suficientes e competentes, aptos a tornar visível a
ação mistérica nela contida. Os
seis domingos da Quaresma pontualizam a caminhada da comunidade. Os dois
primeiros mostram-nos o sentido e a natureza desta nossa peregrinação. Cristo
aparece como protagonista, modelo e mestre da Quaresma.
Os quarenta
dias no deserto, a luta que se consumará na cruz, por um lado, e a glória que
antecipadamente se revela e que resplandecerá para sempre no corpo do
ressuscitado. Luta e glória que mostram o caminho de Jesus entre as oposições
dos seus inimigos e a certeza da presença do Pai na sua vida. Este
é, pois também, o itinerário da nossa peregrinação: “peregrinando entre
as perseguições do mundo e as consolações de Deus”(Sto. Agostinho).
O sexto
domingo (conhecido por Domingo de Ramos) abre-nos à grande celebração anual
da Páscoa do Senhor que terá lugar no Tríduo sacro da sua morte, sepultura e
ressurreição (missa vespertina da Ceia do Senhor, celebração da Paixão do
Senhor, o sábado do repouso, da contemplação e da oração e o domingo da
ressurreição que se abre com a solene vigília.
Celebrar a
Quaresma e depois não celebrar a Páscoa faz pouco sentido. Um
planejamento pastoral a diversos níveis, comunitário, paroquial regional sobre
as celebrações pascais, pode permitir que a Quaresma seja o que é, preparação,
e aponte para os cinqüenta dias da Páscoa. É curta e não tem cabimento uma
perspectiva pastoral que se esgote na Quaresma. E se o júbilo vai crescendo com
a preparação, é porque brota da celebração festiva da Páscoa, para onde
aponta. Por isso, podemos dizer que não celebramos propriamente a Quaresma, mas
a Páscoa.
O DESERTO E O SILÊNCIO
A Quaresma inicia-se com um apelo ao
deserto. Jesus, diz o Evangelho, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Também
outrora Abraão fora chamado da sua terra, Ur de Caldéia, para se dirigir,
através do deserto, à terra que o Senhor haveria de dar aos seus descendentes.
Moisés ouviu no deserto a palavra de Deus, com a qual se iniciaria a libertação
do povo israelita. Este mesmo povo teve de caminhar, durante quarenta anos,
através do deserto, para chegar à terra da promissão. E foi no deserto que
ele experimentou a presença ativa e salvadora do Deus de seus pais.
O deserto
é o silêncio e a solidão. Solidão forçada vivem hoje muitos dos nossos irmãos,
uma solidão dolorosa, clamando por gestos de solidariedade. É a solidão
daqueles que a sociedade marginaliza, porque já não produzem para os seus
planos econômicos.
Há, porém,
um silêncio que devemos cultivar, especialmente neste tempo de quaresma, silêncio
muito importante e muito presente na tradição cristã, mas que não faz parte da cultura dominante, apesar de ser
comprovado que o barulho é prejudicial para uma vida saudável. Nem
os ecologistas, pelo visto, se preocupam em campanhas a favor da redução dos
ruídos excessivos.
São onze
horas da noite. Estou sentado à minha mesa de trabalho escrevendo. Além
daquele ruído de fundo, provocado
pelo vai e vem constante dos carros no centro da cidade, há ruídos de carros
da polícia e de ambulâncias com sirene. Nada contra, muitos estão cumprindo o
seu dever e servindo a comunidade. O centro da cidade é aproveitado, com demasiada freqüência,
para manifestações e festas de tudo e de nada, com a utilização de potentes
alto-falantes, que gritam, quer de dia quer de noite.
Há também
outra espécie de ruídos que, sem ferirem demasiado os ouvidos, atingem o espírito
e o envolvem num clima de dissipação. São as rádios, as televisões, a
internet e toda espécie de palavras que invadem a nossa alma, impedindo-nos de
pensar por nós mesmos, correndo o risco de sermos manipulados por quem fala
mais alto ou repete mais insistentemente as mesmas idéias.
Tão
acostumados estamos a todo tipo de barulho, que chegamos a ter medo do silêncio.
É que o silêncio tem o poder de nos questionar, de nos fazer perguntas a que
tememos dar respostas. E, no entanto, é no silêncio que podemos refletir, que
podemos descobrir quem somos, de onde viemos e para onde vamos, é no silêncio
que podemos ouvir a voz de Deus.
Quando o
profeta Elias se retirou para o monte Horeb,
à espera de ouvir a palavra de Deus, começou por sentir uma forte
rajada de vento, “mas o Senhor não estava no vento”. A seguir, deu-se conta
de um forte terremoto”, “mas o Senhor não estava no terremoto”. Depois
veio um fogo impetuoso, “mas o Senhor não estava no fogo”. Seguiu-se “uma
leve brisa no silêncio”. Ao ouvi-lo, Elias saiu da gruta onde se refugiara e
foi então que ouviu a voz de Deus que o enviava em missão.
Foi também
na imensidão silenciosa do deserto que algumas pessoas encontraram a Deus. Não
precisamos ir para o deserto, mas precisamos criar à nossa volta espaços de
silêncio, para fazermos as pazes conosco mesmos, para encontrarmos ou
descobrirmos a nossa personalidade em toda a sua dimensão humana e
transcendente, para tomar consciência do que há em nós de oposto aos desígnios
de Deus, para refazermos a rota que nos conduz não só à celebração da Páscoa
no tempo, mas sobretudo à nossa própria ressurreição definitiva em Deus.
A PAZ NO MUNDO
No sábado, dia 15 de Fevereiro, enquanto o governos e organizações oficiais
continuavam a discutir o apoio às propostas bélicas da administração
americana, e um dia depois os observadores das Nações Unidas não terem concluído
pela existência de provas claras nem da posse de armas de destruição maciça,
nem da falta de cumprimento pelo Iraque das resoluções do Conselho de Segurança,
numerosas organizações não governamentais conseguiram que em todo o mundo
muitos milhões de pessoas se manifestassem contra declaração unilateral de
guerra por parte dos Estados Unidos ao Iraque. Mesmo os timorenses, a mais jovem
nação do mundo, se reuniram em manifestação contra a guerra.
O fato tem
uma importância que não pode ser esquecida pelos teóricos daquilo que se tem
chamado “guerra preventiva”. Este
conceito, que não tem qualquer fundamento nas convenções internacionais, tem
sido denunciado na sua clara falsidade pelos mais diversos quadrantes políticos
e sociais. A
começar pela posição do Papa João Paulo II, que repetidamente tem feito
apelos de paz.
Vários
chefes e antigos chefes de governos e de Estados se têm manifestado na mesma
direção. Uma das posições mais veementes foi a de Nelson Mandela, que se
mostrou disposto a ir ao Iraque a fim de tentar impedir a ação unilateral
americana.
No sentido
de dar mais força e visibilidade à sua postura, o Papa enviou ao próprio
governo iraquiano uma das figuras mais representativas da Igreja Católica, o
conceituado Cardeal francês Roger Echegaray, que não se cansou de repetir que
a guerra não é solução, mas o maior e mais grave de todos os problemas.
Na mesma altura, o Papa recebia o vice-presidente iraquiano, Taraq Azziz,
no sentido de conseguir que o regime iraquiano respeite as resoluções
internacionais.
João Paulo
II desenvolve assim uma intervenção no campo diplomático que deve ser
interpretada no contexto maior dos múltiplos apelos que têm feito aos cristãos
de todas as latitudes para que rezem pela paz.
Rezar pela
paz significa não apenas o pedido de auxílio divino, mas essencialmente a criação
de uma consciência coletiva que lhe seja favorável, e para que sejam movidos
os mais empedernidos corações humanos no sentido de evitar uma catástrofe
para a humanidade: milhares de mortos, crise econômica iminente. Milhares ou
milhões de refugiados, motivação para mais atos terroristas, enfim, um
desfiar de calamidades em que a razão da força americana quer mergulhar
sobretudo o Médio Oriente e a Europa. Conflito que poderá atingir toda a
humanidade.
Oxalá que
o sentimento coletivo desperte o senso comum dos poderosos, que por vezes dele
carecem. Nenhuma atitude de nenhum ditador justifica que se mantenham ou façam
sofrer mais suas vítimas. Não se combate ou justifica um mal com outro mal
maior.
No final do
ano passado, próximo ao Natal, o Papa pediu aos Católicos que fizessem com ele
um dia de jejum, durante o qual se rezasse fervorosamente pela paz, paz
duradoura, fundada sobre a justiça.
Neste ano,
o Papa pede para fazermos da Quarta-feira de Cinzas um dia de jejum e de oração
pela paz. Que
todos os irmãos, sejam encorajados a esta jornada de jejum, cada qual
escolhendo a modalidade pessoal de jejum, em favor dos pobres, “em particular
dos que sofrem neste momento as conseqüências do terrorismo ou da guerra”.
As crianças também sejam sensibilizadas a rezarem pela paz.
Como diz
S.Pedro Crisólogo, “esta três coisas – oração, jejum, misericórdia –
formam uma coisa só; e recebem vida umas das outras. O jejum é a alma da oração,
e a misericórdia a vida do jejum. Ninguém as separe, porque não subsistam
separadas”.
ANO VOCACIONAL
Enfim, uma palavra sobre o Ano Vocacional.
O Ano
Vocacional é uma ano de intensa evangelização nas comunidades sobre a dimensão
vocacional da vida cristã, como serviço ao Reino de Deus e sua conscientização
sobre a vocação presbiteral e as várias formas de vocação de especial
consagração, como caminho particularmente fecundo desse serviço.
Para
dinamizar este trabalho, fomenta-se a Pastoral Vocacional, que é uma resposta
generosa ao desejo e à ordem de Cristo: “Pedi ao Senhor da messe que envie
operários para a sua messe”(MT 9,36-38).
A fé
assegura que o Senhor Jesus, mediante o seu Espírito, não deixará de chamar
homens e mulheres pra O seguirem, como servidores e testemunhas totalmente
consagrados à causa do Evangelho.
Este chamado está conexo com o mistério da
salvação, que opera continuamente no mundo: “Deus, nosso Salvador,
quer que todas as pessoas se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”(1 Im.2,3ss.).
Mas
“como hão de ouvir, se não houver quem o anuncie? E como hão de anunciar,
se não forem enviados?”(Rom 10,14 s.)
Hoje, a
resposta ao chamado torna-se tanto mais urgente, quanto mais a Igreja,
“sacramento universal da salvação”(LG 48), tem de responder ao desafio de
um mundo novo. É o desafio do novo milênio. Este pelo menos idealmente quer
dar à humanidade mais bem-estar, liberdade, felicidade. Assegura-lhe um domínio
mais vasto sobre a matéria e sobre a natureza. Permite comunicações
universais extremamente rápidas. Está cheio de promessas e de esperanças. Mas
também é de tal modo orgulhoso que presume poder construir-se sozinho,
sem Deus, é a análise da Gaudium et Spes.
É um mundo
cheio de possibilidades e realizações, mas ao mesmo tempo experimenta
insegurança e desequilíbrios profundos. Apesar das suas riquezas, um grande número
de pessoas continua a ser atormentado pela miséria e pela fome. Apesar dos seus
projetos de libertação e de justiça, a injustiça, a opressão e a violência
continuam a reinar em muitas partes da terra.
Nesta situação,
a Igreja coloca-se como um sinal de esperança. A Igreja tem certeza que “o
deserto florescerá” (Is 35,1). Ela acredita que Jesus Cristo, morto e
ressuscitado por toda a humanidade, a ela oferece pelo Espírito Santo, a luz e
a força que lhes permite corresponder à sua altíssima vocação... Crê também
que no seu Senhor e Mestre se encontram a chave, o centro e o fim de toda a história
humana”R.H.14).
Assim, o Ano
Vocacional deve estar presente em todas as campanhas e promoções mais
significativas a serem realizadas neste ano 2003. Deverá impregnar toda a
evangelização de genuíno espírito vocacional, visando a despertar em todos a
sua específica vocação.
Para tanto o
lema “Avancem para águas mais profundas” deverá servir como ponto de
unidade e referência de todos os trabalhos e subsídios no Ano Vocacional.
Diante do chamado de Cristo, da Vocação que Ele nos dá, em resposta ao seu
amor de predileção deve emergir a nossa generosidade na renúncia ao que nos
poderia dele separar, a confiança na sua Graça e o decidido “Sim” à sua
proposta “Avancem para águas mais profundas”.
Dom
Washington Cruz, C. P.
Arcebispo
de Goiânia
Reunião
geral do clero
- 28/02/03