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O  MAL  É  CONSEQÜÊNCIA  DO   PECADO   ORIGINAL?

 

Precisamos entender bem a questão do pecado original, para não torná-lo um bode expiatório de todos os males que afligem o mundo. Lendo a narração bíblica do paraíso terrestre (Gênesis cap. 2), somos levados a interpretar seu linguajar simbólico como uma reportagem histórica sobre às origens da humanidade, quase imaginando o paraíso com um “país encantado“. Esta alerta é feita pelo próprio Catecismo católico para adultos, publicado pelos bispos da Alemanha, quando somos tentados, a pintar com imagens fantasiosas, a narração do primeiro livro da Bíblia.

O paraíso terrestre 
A narração bíblica sobre o paraíso terrestre e o pecado original contêm afirmações sobre as causas históricas do mal presente no mundo. Os estudiosos e o Catecismo dos bispos alemães falam de narrações que procuram explicar a causa do mal. A mensagem destas primeiras páginas da Bíblia pode ser entendida desta maneira: Deus criou o mundo e tudo era bom. A maldade não se originou de Deus, mas apareceu sucessivamente, no decorrer da história da humanidade. Do mal existente no mundo não pode ser culpado Deus e sim o próprio homem. 
Mesmo que a mensagem bíblica do Gênesis seja bonita e sugestiva, o homem, ao longo dos tempos, sempre se interrogou sobre o escândalo do mal no mundo, como guerras, fome, doenças incuráveis, cataclismos naturais e sofrimentos em geral). Esta questão exige uma resposta satisfatória, que leve em consideração também a diversidade de maldades existentes no mundo: umas podem ser atribuídas ao homem e à má gestão de sua liberdade e outras não. 
É necessário logo lembrar que Deus é misterioso no seu agir e que muitas vezes seus desígnios não são sempre entendidos pelo homem. Isso não é fugir de uma explicação plausível, mas reconhecer nossos limites de seres humanos.
 

A sabedoria de Jó 
O livro de Jó não cansa de lembrar que o ser humano é demasiadamente pequeno diante da majestade de Deus: “ele vê somente a borda de suas obras e ouve somente um leve murmúrio de sua potência e não enxerga a totalidade da criação”. O Catecismo dos bispos italianos assim comenta o capítulo 28 do livro de Jó: “Deus é demasiadamente grande e não nos surpreende que seja também misterioso. Toda tentativa de justificar seus atos ou condená-lo são inúteis”. Continuando em nossa reflexão, é necessário lembrar que Deus criou o mundo “finito” e em evolução. O Catecismo diz a este respeito: “Muitos males são originados com certeza dos limites naturais, da inserção no mundo. Participando de um processo global, o ser humano nasce, se transforma e morre como todos os demais seres da natureza. Pode receber a vida somente em fragmentos… O Senhor cria um mundo que poderá vir a ser, dentro do qual as criaturas podem agir activamente e com liberdade e tender para a perfeição. Isso implica que inúmeros seres são continuamente destruídos, para que outros possam viver, e que os anjos e os homens podem pecar” (págs. 190-191)
    

Uma amizade perdida 
O mundo criado por Deus “finito” e em evolução, pode explicar uns males que afligem a humanidade, sem precisar recorrer ao pecado original. Mas ao próprio pecado devemos fazer referência se queremos enxergar as coisas em profundidade. Sabemos, pela fé, que o dom originário da Graça divina incluía a possibilidade da integridade e da imortalidade para o homem. Escreve o Catecismo: “A amizade com Deus poderia ter sido assim íntima e palpável a fim de orientar com facilidade para o bem todas as energias e cada tendência espontânea e assim preservar do sofrimento e da morte angustiante o ser humano. Infelizmente esta condição perdeu-se por causa do pecado” (pág. 191). O homem antes do pecado não possuía certamente uma inteligência maior que a nossa, mas a amizade com Deus lhe garantia uma grande e profunda sabedoria. Podia compreender tudo em Deus, origem e fim de todas as coisas. Esta sabedoria superior permitia-lhe de conviver com sua limitação, dentro do plano da criação, de reconhecer o projeto originário de Deus e dialogar com o Criador, com a mesma intimidade de Jó: “Reconheço que podes tudo, e que nenhum plano é irrealizável para ti” (42,2).

Texto originário de Franco Ardusso (teólogo)


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